João Pimentel: Explica para o resto

Ao contrário de muitos amigos, sou, infelizmente, descrente no futuro do meu país

Por O Dia

Ao contrário de muitos amigos%2C sou%2C infelizmente%2C descrente no futuro do meu paísAgência O Dia

Rio - Há uns três anos, tive a ideia de fazer um musical sobre duas de minhas grandes paixões, o futebol e o samba. Como não sou um cara de teatro, procurei Gustavo Gasparani, um diretor amigo que acompanho desde que assisti ao inspirado espetáculo ‘Otelo da Mangueira’, em que ele transpôs a trama de Shakespeare para ruas e vielas da Mangueira. O trabalho do Gustavo foi maravilhoso, e ele foi contemplado como o melhor diretor de 2014 pelo Prêmio Cesgranrio de Teatro, com nosso ‘Samba Futebol Clube’.

Seu grande mérito, em minha modesta opinião, foi ter explorado, através da pesquisa de textos, feita por mim, e de músicas, por Alfredo Del-Penho, o universo do futebol em sua “quase” totalidade. Das memórias da infância e das lúdicas peladas ao uso do esporte pela ditadura militar. Da miséria à glória dos jogadores às tragédias do dia a dia. Isso em textos de Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade e outros. Emocionante.

O “quase” fica por conta da exclusão dos cartolas, dirigentes de federação, empresários, o lixo do futebol. Não sei se foi proposital ou não, mas relegar ao anonimato essa gente foi mais um trunfo do ‘Samba Futebol Clube’.

Mas o samba e o futebol também têm em comum o fato de o profissionalismo ter se corroído através dos tempos. Por isso, fico longe do submundo das escolas e do meu clube de futebol. Não me espantou a Beija-Flor ter desfilado com o dinheiro do ditador da Guiné Equatorial, seja ele repassado por empreiteiras ou não. Não me causa estranheza o Neguinho da Beija-Flor, que me parece ser uma pessoa de bem, lembrar que a escola de Nilópolis já cantou o jogo do bicho. Mas a Beija-Flor andava abraçada à outra ditadura quando cantou que “sonhar com rapaz todo enfeitado/O resultado, pessoal, é pavão ou é veado”. Pior é dar dinheiro público na mão de contraventor, sambar ao lado dele na Avenida para o país inteiro ver.

A permissividade tão bem aproveitada por nós, foliões, não é bem-vinda na política nem nos quatro dias de louvor ao Rei Momo.

Ao contrário de muitos amigos, sou, infelizmente, descrente no futuro do meu país. E isso contrasta com a pessoa otimista que sou. É evidente que há exceções, mas vivo na cidade mais bonita do planeta à mercê de uma PM criminosa e opressora, de taxistas que recusam corridas e enganam passageiros, de preços cada vez mais exorbitantes, de governantes sem respeito às suas crianças e seus professores, de crimes, de preconceito e de um Carnaval comandado há décadas pelas mesmas figuras.

Assistindo ontem a um programa sobre os 90 anos do genial Lan, ouvi em um depoimento antigo do mestre dos traços que o Rio de Janeiro e o carioca não combinam com violência. Concordo com o Lan, mas explica para o resto.

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