Jaguar: Marx estava certo

Não o Karl, cheio de certezas, todas caducas. Estou falando do Groucho Marx, sempre atual, porque nunca levou nada a sério, a começar por ele mesmo

Por O Dia

Rio - Não o Karl, cheio de certezas, todas caducas. Estou falando do Groucho Marx, sempre atual, porque nunca levou nada a sério, a começar por ele mesmo. Ignorei sua dica e acabei entrando para um clube que me aceitou como sócio. Conheci o Marimbás levado por Carlinhos Niemeyer, figura solar. No meu panteão imaginário, o carioca exemplar, a cara dos versos de Vinicius: “Se todos fossem iguais a você, que maravilha viver.” Além disso, o título e o uísque eram baratos.

Andava do Leblon até lá, no Posto 6, e lia os jornais na varanda olhando os pescadores puxando a rede. Concordando que “o mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito” antes mesmo daquela estátua do Caymmi, musculoso como Hulk. E do Drummond, de costas para o mar, condenado a olhar o engarrafamento da Atlântica (até que a tsunami da crônica ‘Ai de ti, Copacabana’, de Rubem Braga, lamba tudo). Eu levava lá os amigos de passagem pelo Rio.

Várias das badaladas entrevistas do ‘Pasquim’, então no auge, foram feitas naquela varanda, onde lançamos a edição especial sobre Darcy Ribeiro. Compareceram Oscar Niemeyer, Luiz Carlos Prestes e João Saldanha; os almirantes e generais nunca viram tanto comunista junto. O chope não fica nada a dever ao do Bar Luiz, e os frutos do mar são imbatíveis, fornecidos pelos sócios — a maioria faz pesca submarina. Mas a sede estava caindo aos pedaços, escalavrada pela maresia. Sugeri que Gilles Jacquard, o pintor e decorador, desse uma guaribada; ele topou, e o Marimbás ficou um dos lugares mais charmosos do Rio. Tem até bloco de Carnaval, o Marimbola, associado ao Bola Preta (fiz o desenho da camiseta).

E tem o lado surrealista. De acordo com os novos estatutos, levar Rafinha, meu neto (1 ano e meio), para tomar um suco no fim de semana é operação complexa e cara. Além de precisar avisar à portaria, desembolsarei R$ 50 pelo pai e R$ 50 pela mãe, que é o preço do ingresso para não sócios (fora o suco, claro). Assim que tirar o CPF ele vai ter que mostrar ao porteiro. Sai mais barato se o convite for para o salão de jogos. Nesse caso Rafinha terá que desembolsar apenas R$ 30 para tentar a sorte no pôquer, tranca ou pontinho. Ia esquecendo: a toalha (R$ 5) e taxa de suvenir (R$ 30) também são cobradas. Não me perguntem o que é taxa de suvenir. De qualquer forma, sai mais em conta que o carteado do cassino mais próximo, Punta del Este. Foi meu único investimento que não deu prejuízo: em 12 anos, o título do clube valorizou, pasmem, quase 3.000%.

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