Lições violentas fora da sala

Alunos usam Facebook para relatar agressões e tentativas de estupro na Universidade Rural

Por O Dia

Rio - Domingo, 19 de maio de 2013. São 18h20, e a estudante S., 19 anos, do curso de Psicologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em Seropédica, acaba de passar por uma das entradas do campus.

O local não tem muros. Mas, para chegar ao prédio, onde faria estágio na manhã seguinte, ela ainda tem um longo caminho a percorrer.

O trajeto é escuro e as poucas lâmpadas dos postes estão queimadas, fazendo com que a jovem recorra à luz do celular para iluminar o caminho. Só que a caminhada é violentamente interrompida por um homem, que arranca das suas mãos a mochila e a bolsa. E ordena que ela tire a blusa.

Como S. não obedece, o agressor, um jovem, passa a ofendê-la e rasga sua calça. Irritado, dá um tapa no rosto da estudante e tenta asfixiá-la, apertando seu pescoço com as duas mãos. Para S., o estupro só não foi consumado porque o agressor se assustou com as luzes distantes de um carro da guarda da universidade e a soltou. Desesperada, ela correu e buscou amparo junto a amigos no prédio do Diretório Central do Estudante (DCE).

Internet

Relatos de agressões e tentativas de estupro no campus passaram a ser comuns recentemente. É o que assegura relatos de outras 18 estudantes na página “Abusos do Cotidiano”, no Facebook. Até a última sexta-feira, a página contava com 30 mil visualizações e 800 curtidas.

A insegurança integra uma das pautas de reivindicações dos alunos da Rural. No dia 13 de março, eles ocuparam o prédio da reitoria, em protesto pela falta de infraestrutura da universidade.

“Tive de suspender meu estágio. Estou com medo de entrar no prédio porque fica perto do local da agressão. A quantidade de vigilantes não é suficiente”, diz S., que registrou a agressão e a tentativa de estupro na 48ª DP (Seropédica). Ela não sabe se quem a atacou é aluno da Rural.

Gustavo Pereira, coordenador do DCE, relata que os casos de violência contra alunas são constantes. “Até funcionários que trabalham em obras dentro da Rural ofendem as alunas com xingamentos e palavras ofensivas”, diz.

Aberto em 1948, o campus tem uma entrada principal, onde fica a guarita, e diversos acessos sem iluminação, como a ciclovia e a entrada próxima ao Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS), perto do local da agressão a S.

Vice-reitor admite a insegurança

O vice-reitor da Universidade Rural, o professor José Eduardo Callado, disse que negocia com os alunos para que as reivindicações sejam atendidas. Ele atribuiu a escuridão à falta de reposição das lâmpadas, responsabilidade dos técnicos administrativos, cuja greve só acabou dia 13.

Callado admite que o número de vigilantes da Rural é insuficiente para patrulhar seus 3.500 hectares. E afirma que encaminhou pedido ao Ministério da Educação para um novo concurso público, o que não ocorre há 15 anos.

Sobre a colocação de muros, ele disse que o assunto precisa ser discutido entre reitoria, alunos e a comunidade.

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