Trabalhadores 'ocupam' quadras do Aterro do Flamengo nas madrugadas

Jogos de futebol entre funcionários de bares e restaurantes representa tradicional ponto de encontro na Zona Sul do Rio

Por O Dia

Rio - É mais um dia de partida importante para o Napoli. Os jogadores, em sua maioria oriundos das regiões mais pobres do país, vestem seu uniforme azul celeste e se preparam para entrar em campo. A equipe em questão não é a italiana onde Diego Maradona brilhou nos anos 1980, mas uma formada por trabalhadores vindos de um pequeno povoado no Ceará.

O grupo de garçons, cozinheiros e motoboys veio de Santo Antônio dos Camelos, localidade do município de Guaraciaba do Norte. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade tem uma população aproximada de 38.832 pessoas. O município inteiro não lota nem mesmo o estádio de San Paolo, local onde joga a equipe europeia e que tem capacidade para 60 mil torcedores.

Com pose de equipe profissional%2C peladeiros do Napoli se preparam para mais uma partida no Aterro do FlamengoOsvaldo Praddo / Agência O Dia

Estes trabalhadores ocupam as quadras públicas do Aterro do Flamengo, na Zona Sul do Rio, nas madrugadas de quarta-feira em peladas muito bem organizadas e com a seriedade de qualquer partida regulamentada pela Fifa, só que com regras específicas. São oito (às vezes 11) de cada lado, dois tempos de 35 minutos, há pequenos torneios e campeonatos com premiações em dinheiro bancadas pelas próprias equipes.

No Napoli, jogam funcionários dos restaurantes Planalto do Flamengo, Garota do Flamengo e Garota da Urca, além dos bares Adega da Praça e Caipira Real. Após um dia intenso de trabalho, eles partem para as quadras e disputam as partidas por volta das 2h da madrugada. Depois do jogo, confraternizam com umas cervejinhas.

"A gente chegou do Nordeste quase todo mundo junto há três anos, lá a gente jogava sempre e somos todos da mesma região. Aí surgiu a ideia de bater o futebol como a gente batia lá, já que todo mundo trabalha à noite", explica um dos organizadores, o motoboy Francisco Flávio Bastos Pereira, de 24 anos.

Francisco Flávio Bastos é motoboy e organiza a pelada com seus conterrâneosOsvaldo Praddo / Agência O Dia

Chamado pelos amigos apenas de Flávio, o morador da Vila do João, no complexo de favelas da Maré, em Bonsucesso, é o responsável pelos contatos e por reunir o grupo. Segundo ele, na turma há amigos de longa data e parentes. "Tenho primo, irmão e cunhado jogando aqui comigo. Perdendo ou ganhando, a gente sempre está aqui. O que é bom é isso porque acho que se não tivéssemos a mesma origem já teria até acabado. Isso daqui relaxa depois de qualquer problema no trabalho ou briga com a mulher", brinca.

Durante a madrugada, não há necessidade de marcar a utilização das quadras do Aterro. No entanto, as "panelas" estão formadas há muito tempo e o esquema funciona através de indicação. "Depois de meia-noite, não tem que agendar. É só chegar e colocar a camisa. Só que tem um cara com uma barraquinha que pega o campo para a gente e damos uma quantia para ele. Além disso, pagamos a rede e rola uma cervejinha para a galera depois", esclarece.

E as esposas e namoradas, será que levam essa confraternização numa boa? Flávio explica que nem sempre: "Ah, às vezes as esposas ficam bravas, mas elas já conhecem a gente de lá e sabem como funciona. Elas também vieram do Ceará com a gente".

Cuidados necessários na prática do futebol

O futebol é um esporte de alto impacto, sendo assim sua prática deve estar cercada de alguns cuidados. De acordo com o professor de educação física Daniel Lima, de 36 anos, a situação dos jogadores é semelhante a dos atletas de fim de semana. "Eles não têm um condicionamento regular de atividades físicas. Jogar futebol corresponde a um forte impacto com solo e pode até ser danoso para a saúde caso o corpo não esteja preparado", afirma.

O organizador da pelada confessa que, após as partidas, o cansaço atinge eles em cheio. Além disso, os jogadores não têm o costume de praticar outras atividades físicas no decorrer da semana.

Juiz é rigoroso na cobrança de faltas e ouve muitas reclamações%2C mas sem tantos palavrões ou falta de respeitoOsvaldo Praddo / Agência O Dia

"As pernas ficam doendo, o corpo fica todo doído, mas amanhã eu estou de folga. Mas quem não está de folga vai trabalhar arrasado. Aqui ninguém treina, o treino e o jogo são a a mesma coisa. Na verdade, a gente tem medo de se contundir. Tem medo de machucar o joelho. Dá cãibra direto na galera aí e quando o jogo é muito pegado ao fim da partida tem gente que deita no campo com cãibras", conta Flávio.

O professor Daniel afirma que aqueles que optam por jogar este futebol semanal devem mudar os hábitos quanto à pratica de exercícios outros dias para evitar as lesões. Segundo ele, pelo menos meia hora de caminhada diária já resolve a questão do sedentarismo.

A partida é entre amadores%2C mas a vontade é digna de qualquer equipe profissional de futebolOsvaldo Praddo / Agência O Dia

"Se a pessoa tem pouco tempo, é bom usar os artifícios do dia a dia para não ficar parado. Pode optar em sempre subir as escadas em vez de ir de elevador, no caso de quem pega ônibus é possível saltar dois pontos e ir andando até o destino", diz.

No caso das cãibras, elas podem ser evitadas através do alongamento antes de dormir e depois dos exercícios, de acordo com Daniel. Além disso, é importante cuidar da alimentação diária. O ideal para fugir dos espasmos involuntários é adotar uma dieta variada, colorida, rica em vitaminas e minerais (sobretudo potássio, magnésio, cálcio e sódio) e hidratação.

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