Mototaxista é baleado em suposto ataque de traficantes no Complexo da Maré

Segundo colegas da vítima, bandidos cumpriram ameaça feita há uma semana e militares do Exército se jogaram no chão para fugir dos tiros

Por O Dia

Rio - O mototaxista Fábio da Silva de Barros, de 28 anos, foi baleado nas costas no fim da noite desta segunda-feira, na entrada do Conjunto Esperança, no Complexo da Maré, ocupada desde sábado pelo Exército Brasileiro em substituição à PM. De acordo com colegas de profissão, tiros foram disparados de dentro de um Toyota Corolla preto em outros dois pontos de mototaxistas na região. Os autores seriam bandidos da comunidade do Caju, na Zona Portuária, que possui uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Ainda segundo eles, paraquedistas não reagiram e chegaram a se jogar no chão para se abrigar dos tiros. O Exército informou que ocorreram pelo menos cinco ataques no período. Duas faixas da Avenida Brasil chegaram a ser fechadas por cerca de meia hora em protesto pela falta de segurança. Ninguém foi preso.

Amigos rezam próximo da roupa ensanguentada de Fábio da Silva de BarrosOsvaldo Praddo / Agência O Dia

Os ataques aos pontos de motoboys ocorreram por volta das 23h30. Primeiro os bandidos no Corolla preto atiraram contra os motociclistas que fazem ponto para o transporte de passageiros da comunidade na entrada do Conjunto Esperança, onde Fábio foi atingido por um tiro nas costas. A bala ficou alojado no ombro. Segundo o irmão dele, que se identificou apenas como Vágner e também é mototaxista, o primeiro atendimento foi feito por homens da Cruz Vermelha que dão suporte a atuação do Exército na Maré. Bombeiros levaram a vítima para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Vila do João e depois pra ao Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro. Ele foi encaminhado para o centro cirúrgico, mas ainda não há informações sobre seu estado de saúde.

Cerca de 500 metros do local do primeiro ataque, os bandidos dispararam contra mototaxistas que estavam no ponto da entrada da Vila do João. Vágner contou que estava no local e que havia escutado os tiros que tinham sido disparados no Conjunto Esperança, mas jamais imaginou ser uma ação contra os profissionais de moto do Complexo da Maré e nem que seu irmão havia sido vítima.

"Quando recebemos a notícia de que tinha um mototaxista baleado no ponto do Conjunto Esperança partimos todos para lá. É difícil você chegar e ver um ente querido seu caído, baleado no solo. Vamos ter que continuar trabalhando e contando com a sorte. Espero que algo de concreto seja feito em termos de segurança", protestou Vágner. Segundo ele, o irmão é pai de dois filhos e trabalha como vendedor de anúncios para internet de dia. Há três anos ele complementa a renda familiar como mototaxista à noite.

Os militares do Exército que estão na Maré desde o último sábado foram criticados pelos mototaxistasOsvaldo Praddo / Agência O Dia

Depois da Vila do João, os marginais atiraram contra mototaxistas na entrada da Vila dos Pinheiros, próximo a interseção entre as linhas Vermelha e Amarela. Ninguém ficou ferido. Revoltados com o incidente com Fábio, os mototaxistas interditaram com as próprias motos duas faixas da Avenida Brasil, no sentido Zona Oeste, no início da madrugada desta terça-feira. A pista paralela da via, em frente a a entrada à Vila do João também foi fechada.

Segundo vários mototaxistas que não se identificaram com medo de represálias, uma semana antes traficantes do Complexo do Caju, que era dominada pela facção criminosa amigos dos Amigos (ADA) entraram na rua principal da Vila do João, apesar de ocupada na ocasião pelo Batalhão de Choque. Eles amedrontaram os moradores dizendo que tomariam o controle da comunidade e ameaçou atacar os mototaxistas caso eles continuassem a trabalhar no transporte alternativo de passageiros dentro das favelas.

De acordo com o major Alberto Horita, Chefe da Seção de Comunicação Social da Força de Pacificação, as Forças Armadas só tem poder de polícia no interior das comunidades e que o policiamento na Avenida Brasil é de responsabilidade da Polícia Militar. Em nota, o Exército confirmou os três ataques às tropas e informou outros dois ocorridos também à noite. Segundo o EB, bandidos atacaram à tiros tropas nas comunidades da Baixa do Sapateiro e no Morro do Timbau, ambos também no Complexo da Maré.

Exército é criticado

A atuação do Exército no Complexo da Maré foi criticada por mototaxistas colegas de Fábio. Segundo os jovens, a relação por parte dos paraquedistas tem sido considerada autoritária, sem planejamento e desgastante. Eles ficaram surpresos com a não reação dos militares nos ataques atribuídos a traficantes remanescentes do Complexo do Caju.

"Na Nova Holanda e no Parque União os mototaxistas não precisam trabalhar de capacete, já aqui deste lado (vilas do João e dos Pinheiros, Baixa do Sapateiro, Morro do Timbau) é exigido. Eles (soldados) não conseguem nem gravar a fisionomia de um mototaxista a quem eles pediram documentos a 15 minutos atrás, no mesmo local. Tem colega que já foi revistado 15, 20 vezes na mesma noite pelo mesmo grupo de militares. Isso acaba desgastando, minando a relação. Parece que não tem um planejamento", disse um dos jovens, de 20 anos.

Outra observação dos mototaxistas é com relação a colocação dos militares nas comunidades onde houve ataques à noite. Segundo eles, no Parque União e na Nova Holanda os militares se posicionam na entrada das comunidades, o que não ocorre nas demais. Eles apenas se posicionaram nos acessos às comunidades após os ataques e com a chegada da imprensa, disseram mototaxistas ouvidos pelo DIA. No momento dos disparos muitos deles teriam recuado para dentro das comunidades ou se atirado no chão para fugir dos tiros, denunciaram os profissionais da moto.

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