Por adriano.araujo
Publicado 23/12/2014 00:22 | Atualizado 23/12/2014 00:24

Rio - Seja nas portarias dos prédios ou no caixa de lojas, a presença dos famosos ‘livros de ouro’ divide opiniões nos fins de ano. Enquanto algumas pessoas fazem boas doações, outras se recusam ou doam contra a vontade. Mesmo assim, em alguns condomínios, a ceia dos porteiros é farta: eles chegam a receber mais de R$ 1,000, além do décimo terceiro salário, só de caixinha.

A relação entre os moradores e os porteiros do condomínio Eldorado, na Tijuca, é quase familiar. Alguns funcionários viram gerações de condôminos crescerem. Talvez por isso, mesmo já tendo recebido décimo terceiro e os benefícios de fim de ano, os quatro funcionários de cada um dos cinco blocos chegam a receber quase R$ 1.500 de caixinha.

Francisco Vieira porteiro de um prédio em condomínio na Tijuca recebeu R%24 1.500 de ‘caixinha’Paulo Araújo / Agência O Dia

É o caso de Francisco Vieira, 59 anos, porteiro de um dos blocos. Ele trabalha lá há quase 30 anos e garante que a caixinha é apenas um estímulo a mais no fim de ano. “Aqui a gente trabalha bem e da mesma forma o ano inteiro. A doação é por livre e espontânea vontade do morador. Mas nos deixa mais feliz”, disse. Síndica do prédio, Patrícia Pimentel, 40 anos, acredita que a ‘caixinha’ é merecida. “Além de funcionários, eles são um braço direito e pessoas de confiança. Ajudam os idosos, olham pelas crianças.”

Entre as promoções de fim de ano, sempre sobra uma moedinha. Em uma tapeçaria da Praça Saes Pena, na Tijuca, a funcionária Elena Cupertino, 57 anos, capricha nos embrulhos para agradar ao cliente. No ano passado ela desembolsou R$ 1.000. “Um fornecedor deixou uma nota de R$ 50 hoje. Embrulho com muito carinho, acho que é uma retribuição.”

Apesar de muitos considerarem uma boa ação, há quem se incomode com esse costume. Morador de prédio da Rua Gomes Freire, na Lapa, o contador Bruno Coutinho, 36 anos, não faz doações. “Se eu tiver que doar para todo mundo, meu décimo terceiro salário vai inteiro nisso. Considero um constrangimento”, disse.

Prática proibida

Dono de um salão de beleza na Tijuca, Joel Guimarães, 70, não permite ‘caixinha’. “Cliente vem para ficar bonito, não para fazer doação. É uma falta de educação. Eu já pago décimo terceiro.”

Para Gilberto Braga, economista da Ibmec, a gorjeta de fim do ano, mesmo que ainda muito presente, é algo do passado. “Havia muita atividade informal, que a remuneração era variada e o prestador de serviço tirava muito do salário na gorjeta”, disse. “Nos últimos anos as relações de trabalho se tornaram mais formais, os salários incorporaram benefícios. Ninguém pode ser assediado a fazer esse tipo de doação.”

?'Doar não é obrigação'

?Algumas pessoas admitem que só contribuem com as ‘caixinhas’ porque ficam com vergonha de se recusar. Para o especialista em etiqueta Bruno Chateabriand, ninguém paga mico por deixar de doar. “A pessoa tem que se sentir livre para doar ou não, mas não é obrigação. E você deve doar de acordo com o seu poder financeiro, não precisa ser a mesma quantia de quem deu mais”, disse.

Além disso, ele deu uma sugestão. “Não é legal doar só para se exibir. Quando eu morava em prédio nunca assinava a ‘caixinha’, mas dava o dinheiro na mão dos meus porteiros preferidos.”

?Reportagem: Lucas Gayoso

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