Índices de assaltos só crescem na Grande Niterói desde 2011

Números do ISP relacionam alta de casos com a consolidação do projeto das UPPs no Rio

Por O Dia

Rio - Quarta-feira, Icaraí, Niterói. Um garoto de 12 anos é rendido, por volta das 7h, durante arrastão. Dez horas depois, a vítima é uma criança de 4, no Ponto Cem Réis, no Fonseca. A onda de violência nas cidades metropolitanas confirma o medo explícito em números: nos últimos quatro anos, desde 2011, os assaltos a pedestres na Grande Niterói, que também abrange São Gonçalo, subiram 88,8% (de 6.573 para 12.420 casos). 

Dados do ISPDivulgação


Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), os roubos a comércio e de veículos, no mesmo período nos municípios, dispararam: 87,6% e 159,8%. E os dados de janeiro e fevereiro de 2015 preocupam, já que, caso a média seja mantida, alguns índices tendem a se aproximar ou ultrapassar anos anteriores.

“O bandido apontou a pistola para meu filho e se minha esposa não entregasse tudo, ele o mataria. Niterói e São Gonçalo estão um perigo”, contou o pai da vítima. “Todo dia tem relatos na internet de tiroteios em Niterói e São Gonçalo. Estamos cercados pelo medo”, contou o niteroiense Marcelo Wermelinger, 31.

Em 31 de março e 1º de abril, foram registrados dois arrastões em Niterói. Na quinta, um banco foi assaltado em Santa Rosa; um bandido baleado, no Cafubá; e dois PMs feridos em confrontos. Há duas semanas, o ex-vereador Carlos Alberto Magaldi, 67, foi morto em Camboinhas.

Colocado em prática em dezembro de 2008, o projeto da Unidade de Polícia Pacificadora apresentou benefícios para as regiões até 2011, quando índices criminais apresentaram queda.

Já no início de 2012, quando o processo se consolida em redutos do tráfico como Complexo do Alemão e Rocinha, a expansão da violência se torna nítida na região metropolitana. Nos meses subsequentes, com base nos números da Grande Niterói, o aumento de casos prossegue com a retomada de comunidades como Manguinhos, Caju e Complexo do Lins e a ocupação da Maré. 

‘MIGRAÇÃO DE BANDIDOS É REALIDADE’ 

Para presidente de Conselho de Segurança, abandono fomentou crime

Para especialistas e representantes da área de segurança, o crescimento nos números está ligado a dois fatores: a diminuição drástica dos efetivos policiais das regiões metropolitanas nos últimos anos e a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), no Rio, nas principais comunidades dominadas pelo tráfico de drogas.

Em Niterói, por exemplo, no ano de 2006, o 12º BPM contava com 1.910 homens, se levados em conta o cálculo com os do Canil, do Batalhão Florestal, do Getam, entre outros setores. Em 2009, esse efetivo foi reduzido a 820 PMs, oscilando minimamente para mais e menos nos anos seguintes. Apenas em 2015, o batalhão alcançou o número de cerca de 1.100 homens.

“Hoje, as ações propostas pelo governo municipal ajudam muito nesse combate, e o efetivo voltou a crescer, o que também já cria uma esperança. Mas o abandono de anos passados fez com que a criminalidade tomasse conta. Some a isso a falta de projetos para pontos específicos, como entradas e saídas da cidade, que também piorou a segurança”, relatou Moacir Chagas, presidente do Conselho Comunitário de Segurança da cidade.

Para o representante, algumas medidas poderiam ter sido adotadas. “Apresentamos projetos para instalar câmeras com leitores inteligentes de placas na Ponte Rio Niterói e cabines de abordagem. Mas tanto por terra quanto por mar, a repressão continua zero. Eles chegam em carros roubados. Não adianta mais negar, pois a migração de bandidos é uma realidade em vários bairros do município”, completou. 

PM DIZ QUE INTENSIFICOU TRABALHO

Prefeitura colocará 450 câmeras

Um dos principais projetos da Prefeitura de Niterói para a área da segurança na cidade é o Centro Integrado de Segurança Pública (Cisp), com investimentos superiores a R$ 20 milhões. Ele prevê a implantação de portais de monitoramento em todas as entradas da cidade, todos dotados de programas de reconhecimento e identificação de placas de veículos.

Ao todo serão 450 câmeras distribuídas por todo o município, das quais 80 equipadas com os botões de pânico (que serão acionados por pessoas treinadas).

Além disso, a prefeitura realizou um concurso público no ano passado para dobrar o efetivo da Guarda Municipal. Os 75 primeiros colocados já foram convocados e, para abril, está prevista a convocação de mais 75 aprovados.

A Polícia Militar informou que vem intensificando o policiamento nas áreas de maior incidência de roubos, com rondas de viaturas, policiamento a pé, com motocicletas e blitz em pontos estratégicos para prevenir a ação de criminosos.

A corporação também destacou o aumento da atividade policial. Segundo o comando do 12º BPM (Niterói), no último ano, a cidade recebeu um reforço de 200 policias; e estão previstos mais 100 agentes, além das duas Companhias Integradas de Polícia de Proximidade em Icaraí e Santa Rosa.

Apreensão de menor cresce 344% em 2014

Outros dados que chamam atenção são relativos às atividades policiais. Se em 2009 foram apreendidos 265 menores, em 2014 foram 1.179, um aumento de 344%, que explicita a recente tendência da participação de adolescentes em ações criminosas.

Para o vereador de Niterói Paulo Eduardo Gomes (Psol), a questão está além das discussões sobre efetivos ou migrações de bandidos.

“Segurança não é só policial na rua, mas um trabalho de inteligência. Nosso problema não será resolvido a curto prazo. A questão envolve uma educação digna a jovens sem perspectivas, um debate amplo sobre a descriminalização das drogas, um combate eficaz ao crime organizado e a participação efetiva da população como multiplicador de informação à polícia”.

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