Protesto por causa da morte de criança paralisa Madureira

Comércio e escolas fecharam e BRT foi interrompido por mais de quatro horas

Por O Dia

Rio - Explosões, dois ônibus queimados, comércio fechado, pânico, correria, uma estação do BRT incendiada e outra depredada. Esse foi o cenário de guerra ontem, em Madureira, após moradores do Morro do Cajueiro protestarem contra a morte do menino Ryan Gabriel Pereira dos Santos, de 4 anos, baleado na porta da casa do avô no domingo de Páscoa. O confronto entre manifestantes e policiais do Batalhão de Choque, que começou por volta das 13h, parou o bairro da Zona Norte por mais de quatro horas.

Policiais vigiam veículo do BRT que foi incendiadoDivulgação

O corredor Transcarioca, que transporta mais de 230 mil passageiros por dia, foi interrompido nos dois sentidos. Seis estações do BRT ficaram fechadas.Durante o protesto, uma pessoa ficou ferida com três tiros de bala de borracha, quatro foram presas e dois menores, apreendidos. Segundo a PM, os agentes detiveram os manifestantes com duas garrafas de álcool, que seriam usadas para atear fogo em um terceiro ônibus. 

Por causa do confronto, escolas também fecharam e alunos foram impedidos de sair ou tiveram de terminar a aula mais cedo. “Tive de ficar sentada no chão. Ouvi as bombas e achei que eram tiros. As aulas acabaram três horas antes”, contou Helen Calmon, estudante de 16 anos.

Até o tradicional Mercadão de Madureira ficou fechado. Alguns manifestantes tentaram invadir lojas. Mais de 15 carros do Choque e dois blindados entraram no Morro do Cajueiro e um grupo arremessou bombas caseiras contra os PMs. A polícia revidou com balas de borracha, spray de pimenta e bombas de efeito moral.

O avô Milton e a mãe (de camisa azul) do menino Ryan se desesperamSeverino Silva

Grupos fizeram fogueiras nas ruas Leopoldino de Oliveira e Avenida Ministro Edgar Romero, que foram fechadas. Quatro horas depois da confusão, apenas uma das pistas da Edgar Romero, uma das mais movimentadas de Madureira, foi reaberta. A estação Vila Queiroz do BRT foi incendiada, assim como um veículo articulado do sistema, e a Estação Otaviano foi depredada por cerca de 20 pessoas. 

Por causa das bombas de efeito moral, moradores correram para dentro da Escola Carmela Dutra em busca de abrigo, e policiais invadiram o pátio. “Dá medo de levar minha filha para a escola. É um clima de guerra, parece Bagdá”, disse o responsável por um aluno, que preferiu não se identificar.

Além do veículo do BRT, foi incendiado um ônibus da linha 355 (Madureira x Praça Tiradentes). Um terceiro coletivo, da linha 774 (Madureira x Jardim América), foi depredado. De acordo com a Fetranspor, nos últimos 12 meses, 34 ônibus foram queimados em ataques no estado. Segundo a Federação das Empresas de Transporte, o prejuízo com os veículos atingidos ontem supera R$ 1,3 milhão.

Durante os confrontos entre polícia e manifestantes%2C uma mulher passou mal e precisou ser carregadaAlexandre Auler

A morte de Ryan será investigada pelo delegado Niandro Ferreira, titular da 29ª DP (Madureira), que instaurou inquérito para apurar as circunstâncias em que o garoto foi baleado. Uma jovem de 17 anos, identificada como Lorena, também ficou ferida durante o tiroteio de domingo que provocou a morte de Ryan, e está no Hospital Albert Schweitzer, em Realengo, fora de perigo. 

Menino sonhava em ser soldado

Menino Ryan morava na Mangueira e estava na comunidade do Cajueiro, em Madureira, na casa dos avós maternos, onde costumava passar os fins de semana. O garoto queria ter uma moto de brinquedo e sonhava em ser soldado do Exército quando crescesse. “Era domingo de Páscoa, ninguém podia imaginar que isso poderia acontecer. Estava cheio de crianças na rua, inclusive na calçada onde eu estava com meu netinho”, contou o avô, Milton do Amparo, de 48 anos. 

Ele contou que era pouco antes das 17h quando ouviu um tiro e, então, pegou o neto pelo braço para entrar em casa e tentar protegê-lo. Naquele momento, o avô percebeu que o disparo havia atingido Ryan. O tiro, que entrou pelas costas, saiu pelo peito da criança.

A mãe, Taiane Pereira da Silva, de 20 anos, estava muito abalada e não conseguiu falar com a imprensa. Após ouvir a confirmação da morte, no Hospital Getúlio Vargas, na Penha, Taiane gritou: “Tiraram meu filho, o que é isso, Senhor? Meu mundo acabou”. Ryan chegou a passar por cirurgia para reconstrução da aorta, mas não resistiu aos ferimentos. O corpo do menino vai ser sepultado hoje, às 16h, no Cemitério de Irajá. 

A PM usou bombas de efeito moral para dispersar o protestoAlexandre Auler

Bonde aterrorizou Cascadura e matou dois

Cerca de 40 minutos após o tiroteio no Cajueiro, no domingo, duas pessoas foram assassinadas próximo dali, em Cascadura. Michael Madruga de Oliveira, 30, e Allan Clayton Barros Gomes, 20, foram baleados na Rua João Romeiro, perto do Morro do Fubá. Outras quatro ficaram feridas.

Testemunhas relataram que homens, em carros e motos, passaram atirando nas ruas de Cascadura e diziam ser “o bonde da Praça Seca”. Michael trabalhava com festas e estava na porta de casa, arrumando o carro para ir trabalhar, quando bandidos atiraram. Já Allan foi baleado e teve o carro queimado pelos bandidos. Para o comando do 9º BPM (Rocha Miranda), não há relação entre os casos do Cajueiro e do Fubá. A Polícia Civil tenta esclarecer os crimes e identificar os autores. 

Em nove anos, 25 crianças mortas por bala perdida

O menino Ryan foi a 25ª criança de até 14 anos morta por bala perdida nos últimos nove anos, na Região Metropolitana do Rio. O levantamento foi apresentado ontem pela ONG Rio de Paz em uma manifestação realizada à tarde, na Lagoa Rodrigo de Freitas, contra a violência no estado.

Cartazes com os nomes das 25 vítimas foram instalados na Curva do Calombo, onde o médico Jaime Gold foi esfaqueado e morto em maio de 2015.

A ONG ressaltou que, na maioria dos casos, as mortes ocorreram em trocas de tiros entre traficantes e policiais. Geralmente, as crianças eram pobres e, raramente, os culpados são punidos. Segundo Antônio Carlos da Costa, presidente da Rio de Paz, foram 54.329 mortes violentas no estado, de 2007 (início da pesquisa) a fevereiro de 2016.

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