Felippe Da Cás: O preço de um ônibus em chamas

A população é a principal prejudicada com esse tipo de vandalismo

Por O Dia

Rio - Os ônibus são os canais mais significativos de universalização dos serviços públicos, responsáveis por mais de 90% dos deslocamentos realizados no país. Permitem à população de classes mais carentes e regiões mais isoladas se conectar, com influência direta no desempenho de outros setores econômicos, pois é insumo básico nos processos de produção e de consumo de bens e serviços.

Partindo dessa premissa, é preciso entender que a sociedade perde com os ataques a ônibus. Depredações e incêndios prejudicam a todos. De junho de 2013 até meados de outubro de 2015, 106 veículos foram incendiados no Estado do Rio, prejuízo estimado em R$ 37,5 milhões. Levantamento do Rio Ônibus, sindicato das empresas da cidade do Rio, registra que 20 ônibus foram queimados só este ano. No estado, o número chegou a 37.

A população é a principal prejudicada com esse tipo de vandalismo. Não existe seguro para incêndio criminoso, e a reposição de um veículo pode levar até seis meses — entre encomenda, fabricação, entrega e licenciamento. Com o ataque a apenas um veículo, dependendo da linha, cerca de 70 mil passageiros podem deixar de ser transportados durante o período de reposição. O prejuízo acumulado com os ataques em 2015 soma R$ 6,7 milhões. Quem paga essa conta?

Nos serviços intermunicipais, o reajuste de tarifas é dado pelo IPCA, calculado pelo IBGE, e não inclui recomposição das frotas queimadas e depredadas. No Município do Rio, contrato firmado em 2010 não prevê a reposição dos ônibus depredados na fórmula paramétrica pela qual as tarifas são reajustadas anualmente.

Na prática, a responsabilidade de repor os ônibus passa a ser do operador, das empresas, sobrecarregando ainda mais os sistemas de transporte, já comprometidos pelos congestionamentos que reduzem a velocidade comercial dos veículos, pelo processo inflacionário e o desemprego, pelas muitas exigências legais e pela evasão de demanda causada pela violência crescente.

As empresas não arcam sozinhas com o custo. Se o governo não contribui e não faz sua parte, é a população que paga a conta, seja pela redução da frota ou pela perda de qualidade no serviço. Um ônibus em chamas, ou depredado, é prejuízo certo para todos.

Felippe Da Cás  é consultor de Análises Econômicas da Fetranspor

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