Vídeo de festa funk que tem cenário que estigmatiza favela causa polêmica

Material foi criado para divulgar 'baile funk' que acontece no dia 9 de abril. Ingressos estão custando entre R$ 70 e 90

Por O Dia

Rio - Lindas, loiras e de tops e shorts dançam no embalo de um clássico do funk dos anos 90 cantado por Claudinho e Buchecha, o "Rap do Salgueiro", no qual a dupla canta. “Eu sou pobre, pobre, pobre, pobre de marré. Mas sou rico, rico, rico, rico de mulher’’. O vídeo, que faz a divulgação de uma festa em que o ritmo funk é protagonista, causa polêmica ao estigmatizar a pobreza e as dificuldades de quem vive nas favelas cariocas.

O vídeo, de quase três minutos, mostra o cenário da festa inspirado em uma favela, com motoboys conduzindo os convidados, pipas presas em casas, roupas penduradas em varais improvisados e até um vaso sanitário com um cartaz avisando. "Não usar! Entupido", com um desenho sugestivo do que poderia ser encontrado ali.

Vaso entupido faz parte de cenário da 'favela' montada para festa funkReprodução Vídeo

Raull Santiago, ativista do coletivo Papo Reto, que denuncia os problemas vividos no Complexo do Alemão, disse que o o vídeo é um exemplo de "uma sociedade hipócrita, racista e preconceituosa".

"(...)Conseguiram chegar ao cúmulo da apropriação de arte de favela, a partir de esteriótipos terríveis. Será que nesse baile corre o risco de entrar o caveirão e além de furar o cenário, deixar rastro de sangue pelo chão??? No cúmulo do que é escroto, aproveitem na próxima e coloquem bonecos manchados de sangue para simular corpos! (...)", escreveu na postagem de divulgação da festa.

A postagem do vídeo na página da festa causou uma enxurrada de críticas. "Não cansam de passar vergonha não? Tão romantizando pobreza e fazendo festa com tema de favela, mas com certeza sem favelado, né? Tá achando cool vaso entupido, casa no tijolo, roupa no varal, moto táxi, vai morar lá ué", escreveu uma internauta. "Pra festa ficar mais realista só faltava uns policiais batendo em negros menores de idade, uma chuva pirotécnica de bala perdida, um remix de baile de favela com choro de mãe e uma apresentação de gangues trocando bala no meio da multidão. Dica pro próximo evento sobre negros sem negros", falou outra.

Os ingressos para a festa "ERREJOTA: O Baile Funk é Foda", que vai acontecer no Pier Mauá, estão no segundo lote e tem preços entre R$ 70 e 90. 

Festa reproduz barracos de favela e comércios locais%2C como mototáxis e lava-jatoReprodução Vídeo

Organizador pede desculpas

Após a polêmica causada pela publicação do vídeo, a organizadora da festa decidiu postar uma nota de esclarecimento sobre a temática do evento e pedir desculpas caso "em algum momento alguém tenha se sentido ofendido".

Ainda na publicação, a festa disse que "tem por objetivo enaltecer a cultura do funk carioca, que tomou conta da cidade na década de 90 e que mostra sua força até os dias atuais." Segundo a nota publicada no Facebook na noite desta quarta-feira, o intuito não era ofender e sim enaltecer o funk "de forma bem-humorada."

"Reiteramos aqui nosso pedido de desculpas caso, em algum momento alguém tenha se sentido ofendido. Mas principalmente, temos certeza que estamos mostrando a cultura do funk de maneira bacana, construtiva e que busca orgulhar não só quem nasceu e foi criado numa favela, mas todo carioca, afinal o funk é um patrimônio de todo carioca, não apenas das comunidades", conclui  o texto.

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