Por O Dia

Rio - O ano mal começou e com ele chegam as faturas do IPVA e IPTU para pagar. E para quem estuda ou tem filhos em escola ou faculdade, a despesa fica ainda maior porque entram nessa conta renovação de matrícula, mensalidade, lista de material escolar, uniforme, tênis, mochila e transporte. Para se proteger da crise econômica e evitar sangria no bolso o ano todo, o colunista Alex Campos preparou para os leitores do DIA um manual de sobrevivência econômica para 2017.

“Este será mais um ano em que o nosso dinheiro viverá em perigo. Por isso, em busca de confiança e segurança, vale a pena ler e ter em mãos esse manual. São sugestões e orientações para controlar o orçamento, proteger o bolso, escolher empréstimos, identificar investimentos, tomar boas decisões financeiras e evitar maiores perdas ou danos”, afirma o especialista.

Pacto

Dê-se ao luxo de gastar pouco! É na crise que a gente deve pagar mais barato, gastar menos (com as coisas que precisa) e não gastar mais (com as coisas que não precisa). Crise é oportunidade, mas, enquanto a oportunidade não aparece, crise é também reaprendizagem. E reaprender é mudar hábitos. Quando se mudam hábitos, sempre há impacto. Para que esse impacto seja amenizado e absorvido, é preciso haver um pacto. É hora de as famílias passarem a olhar para os seus, para dentro, unir forças e buscar soluções internas.

Consumo

Não basta só cortar excessos. É preciso cortar caprichos (como mais roupas, mais calçados) e cortar manias (como usar o carro em situações desnecessárias. Para ir à academia se exercitar, por exemplo). Menos roupas, menos carro, menos celular, menos internet, menos compras (menos quantidade, menos marcas, menos grifes). Resumindo: menos consumo em geral e menos consumismo em particular.

Promoções

Cabe ficar atento a ofertões, promoções, liquidações; gastar somente o vital, o essencial, o imprescindível; evitar contrair novos créditos, fazer empréstimos ou financiamentos; e buscar, sim, bicos, frilas, serviços temporários, trabalhos autônomos (não importa o nome). Também cabe descartar os produtos líderes, devendo optar por produtos de marcas próprias.

Emprego

Saia do desalento. Mantenha-se atento. Aprume-se, anime-se, informe-se, atualize-se, prepare-se, requalifique-se. Os empregos estão em falta, mas, acredite, vão começar a reaparecer a partir de abril. No quarto mês, as empresas já terão a leitura dos fatos, dados e números do primeiro trimestre, bem como as tendências para o resto de 2017 — que não serão piores que as de 2016. Haverá ainda poucas vagas, mas você tem que estar alerta e pronto para conquistar uma — você só precisa de uma!

Inflação

Está em queda, podendo até descer à meta (jamais cumprida) de 4,5% ao ano. Essa trajetória ocorre mais por demência do que por eficiência da economia. De qualquer forma, vai ajudar muito na melhora da situação, com impactos positivos. Os preços caem, os juros caem. Isso permite a retomada de fôlego das vendas no comércio e das encomendas na indústria — e a retomada, mesmo sendo discreta, servirá para reanimar os ciclos de produção.

Juros

As taxas também vão cair. Mas, sendo os juros baixos ou altos, os brasileiros precisam mudar um dos maus hábitos que regem seus impulsos de compras a prazo: saber se dá para pagar as parcelas. Com essa afeição ao descuido, fecham negócio, efetivam consumo e assumem dívidas sem pensar nos pesados custos embutidos que terão ao longo de meses ou anos.

Orçamento

Dinheiro preza quem tem metas, planos, objetivos. Dinheiro gosta de monitoramento e prevenção. Dinheiro respeita informação. Sem informação, não é recomendável tomar qualquer decisão, muito menos financeira. O orçamento serve para gerar conhecimento. Ele existe para ajustar a vida que se pode viver em concordância com a vida que se pode pagar. O salário precisa ser um “aliado” do seu modo de vida, ele não pode ser a “razão” da sua vida. Caso contrário, vira-se refém do consumo, escravo de dívidas.

Dívida

Sem dúvida, sem dívida. Havendo ou não crise, em 2017 ou 2027, o compromisso deve ser: amortizar dívida, pagar dívida, quitar dívida. A opção de quem busca viver em paz com as finanças é: reduzir parcelas, eliminar cobranças e evitar financiamentos. Uma pessoa ou uma família não pode repetir os erros do governo: gastar mais do que ganha, tudo o que ganha ou quase tudo o que ganha... o resto é dívida.

Renegociação

Comece o ano “zerado”. A melhor maneira de regularizar pendências é procurar o credor ou buscar informações junto a empresas como a Serasa Experian — nos postos de atendimento ou no serasaconsumidor.com.br. É possível negociar dívidas atrasadas, com descontos e condições especiais, na versão online do Super Feirão. Basta acessar e preencher um cadastro. O consumidor será direcionado a uma página que lista todas as dívidas na base de dados, com destaque para canais de atendimento (telefones, e-mail, chat).

Seu negócio I

Em época de crise e desemprego, aumenta o sonho de ter o “próprio negócio” e virar o “próprio patrão”. Mas atenção! Se pretende ter sucesso no seu negócio, você terá que ser o seu melhor chefe e o seu pior chefe — no sentido de trabalhar mais tempo, com maior exigência e com melhores resultados. Não tem essa de trabalhar quando, quanto e como quiser. O próprio negócio — se bem administrado — faz de você o patrão, o gerente, o contador, o encarregado, o empregado e o terceirizado.

Seu negócio II

Não se trata de desencorajar os fortes, apenas de alertar os fracos. Assim é a vida do empreendedor. Você rala mais do que nunca ralou e suou trabalhando para outra pessoa. Você se torna chefe de seus funcionários; logo, responsável pelas famílias deles (além da sua). Um bom negócio não depende mais de boas ideias do que de dinheiro — boas ideias e dinheiro qualquer idiota tem. No Brasil, um bom negócio depende mais da sua capacidade de enfrentar esses desafios, além dos impostos e da “burrocracia”.

Moradia I

O mercado habitacional tende a se beneficiar de uma série de indicadores econômicos mais favoráveis este ano (a partir da queda da inflação e dos juros, já mencionados). Há perspectivas de discreto crescimento do PIB, a soma de todos os bens, produtos e riquezas do país — crescimento que, mesmo discreto, é coisa que não acontece no país há dois anos. Também estão previstas medidas na infraestrutura para a retomada de projetos engavetados ou que estavam em andamento, mas tiveram que ser paralisados.

Moradia II

Pensando em morar sozinho logo agora? Deixe isso para 2018 ou 2019! Morar com os pais é um ótimo investimento. A rigor, não existe ano, hora ou idade para isso. O que existe são condições mínimas e razoáveis. Essa é uma opção que impõe risco, desafio, disciplina e planejamento. O preço da independência é muito alto, a vida é mais cara e os custos são bem maiores. Eles incluem a compra ou o aluguel da moradia, possíveis reformas, eventuais manutenções; gastos com móveis, eletros e supermercados; serviços como luz, gás, água, telefone... e, talvez, pagar o condomínio.

Poupança I

Os prejuízos da poupança tendem a diminuir. Se as previsões do Banco Central (BC) se confirmarem, podem até virar ganhos. A caderneta acumula rendimentos e correções totais acima de 6% ao ano, e a inflação tem projeções que a colocam abaixo de 6% já este ano. Em geral, a caderneta funciona como depósito de sobra financeira, e não como estratégia de planejamento econômico.

Poupança II

Poupar ou investir não é sobre “quanto dinheiro você ganha”, é sobre “quanto dinheiro você pode guardar” — independentemente de quanto você ganha. Você já leu ou ouviu coisa parecida, quando alguém escreveu ou disse que “ninguém é tão pobre que não possa dar, bem como ninguém é tão rico que não precise receber”. Pois é: nenhum salário é tão pequeno que não possa ter uma parte, miúda que seja, guardada mensalmente numa caderneta de poupança.

Renda fixa I

É para lá que o seu dinheiro deve ir ou é lá que o seu dinheiro deve ficar — caso você já seja investidor. Os fundos de investimentos são mais lucrativos, especialmente quando se leva em conta o longo prazo (a partir de três anos) e, mais ainda, quando se consegue do banco uma taxa de administração (paga pelo cliente) abaixo de 1% ao ano.

Renda fixa II

Além da taxa de administração, os fundos de investimentos cobram dos clientes Imposto de Renda (IR) regressivo, de 22,5% a 15%, dependendo da permanência na aplicação. Ou seja, a tributação sobre a rentabilidade da renda fixa é decrescente: quanto mais tempo o dinheiro ficar aplicado, menor o imposto será pago. As alíquotas desse IR são cobradas em maio, sobre os rendimentos de dezembro a maio; e em novembro, sobre os rendimentos de junho a novembro. A quem já pergunta quando será hora de sair dos fundos de investimentos, isso é assunto apenas para o segundo semestre ou o final de 2017.

Tesouro direto I

O Tesouro Direto é um bom investimento para quem tenta fugir dos baixos ganhos da poupança e dos altos riscos com ações ou dólares. O TD é um tipo de renda fixa. Foi criado para facilitar ou popularizar pela internet o mercado de títulos públicos, que são papéis do governo vendidos pelos bancos. A partir de apenas R$ 30, esses títulos podem ser comprados por meio de um sistema de rede conhecido como home broker (corretor ou corretora doméstica).

Tesouro direto II

Além da garantia do Tesouro Nacional, o Tesouro Direto é uma aplicação com custo reduzido, ganho imediato e rendimento atraente. Existem corretoras que não cobram a taxa de administração. Diferentemente da poupança e a exemplo dos fundos de investimentos, o TD sofre incidência de Imposto de Renda, sim, mas a tributação só ocorre no momento da venda ou do vencimento do título. Na dúvida, basta ter em mente a seguinte regrinha de ouro: para qualquer aplicação até seis meses, prefira a poupança; para além desse período, vale a pena considerar, pesquisar e apostar no TD.

Ouro, dólar e bolsa

São assuntos para “capas-pretas” (gente graúna, grana graúda). Mas sempre há os que me escrevem perguntando por eles. Nesses mercados, será mais um ano de “bundy jump”, montanha-russa e salto com vara no abismo; mais um ano de prisões, delações, votações (polêmicas, como as Reformas Previdenciária e Trabalhista), repatriações (incluindo mais impasses, como a volta de dinheiro de parentes dos políticos), tudo isso, muito mais e todo o resto.

Penhor

Disponível na Caixa, o penhor é uma das modalidades de crédito mais simples e mais baratas do mundo. Não exige avalista, burocracia ou análise cadastral. As joias penhoradas (deixadas sob custódia) são a própria garantia. Para conseguir um empréstimo nessa modalidade, basta os clientes levarem à Caixa os documentos pessoais e as peças — que podem ser canetas, relógios, diamantes, metais nobres, pedras preciosas ou pérolas cultivadas. É preciso ter em mente que, em geral, as joias são subavaliadas, por isso o penhor só é um bom negócio quando os clientes têm certeza de que vão poder resgatá-las.

Micropenhor

No micropenhor, a avaliação das joias e a liberação do dinheiro são feitas na hora e na agência. Podem ser tomados créditos a partir de apenas R$ 50 pelo prazo renovável de 30 a 180 dias. O resgate do bem dado como garantia poderá ser antecipado, com direito a desconto proporcional dos juros, que são prefixados abaixo de 2%. Há ainda a Tarifa de Avaliação e Renovação (TAR) e o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), mas nada que encareça muito o custo final da modalidade. Mais seguro, improvável. Mais fácil, impossível.

Consignado

O consignado é outra forma simples de financiamento. Geralmente oferecido com desconto em folha a servidores públicos, aposentados e pensionistas. Os juros estão entre os mais baixos do mercado. Quem não é funcionário público nem trabalhador inativo pode pedir ajuda na família a quem se enquadra numa dessas condições. Também é possível conseguir dinheiro barato em cooperativas ou fundos de assistência financeira. Basta ser associado ou funcionário de um grupo, empresa, conselho profissional ou entidades de classe.

Cartão de crédito I

Se o penhor é um dos melhores, esse é um dos piores empréstimos, quando cai no rotativo. O presidente Michel Temer diz ter planos para reduzir os juros abusivos do cartão de crédito — de operadoras ou de lojas. Mas isso é o mesmo que ter planos para revogar a lei da gravidade ou reverter a rotação da Terra. Segundo o próprio BC, os cartões já cobram taxas de 482,1%. Mesmo que caíssem à metade, como quer Temer, seriam 241,05% — ainda uma aberração sobre a qual não há que se falar em “uso consciente”. No Brasil ou no mundo, fuja do cartão de crédito como os imigrantes ilegais vão fugir do novo presidente norte-americano Donald Trump.

Cartão de crédito II

Interessados numa imunidade ou reabilitação devem conhecer o tratamento oferecido pelo site Tarifas do Cartão (tarifasdocartao.org.br), da Abecs, a associação do setor. O serviço online orienta decisões de compra levando em conta as reais necessidades dos clientes. Lista instituições e informações sobre custos, encargos, cobranças, anuidades e possibilidades de comparação. Esse é o caminho, a verdade e a vida para se curar da “síndrome do chip” — doença que pode causar endividamento crônico e falência múltipla dos orçamentos.

Pirâmide I

Outra armadilha, sempre em alta em época de crise. Não caia nela. Ficar rico jogando dinheiro em pirâmide é tão improvável como ficar rico jogando dinheiro pela janela. Neste momento em que você lê esta página, em algum lugar uma força-tarefa está investigando duas, três ou seis quadrilhas praticando esse crime. A fraude usa atalhos e otários em busca de dinheiro fácil e rápido, sob promessa de altos ganhos no curto prazo, sem burocracia, sem exigência de documentação, sem vínculos trabalhistas, sem obrigações tributárias — e, claro, sem dinheiro fácil e rápido.

Pirâmide II

Não é difícil identificar essa armadilha. Os esquemas não oferecem informações transparentes ou registros oficiais sobre as “empresas” e os “produtos”. Fala-se em “vendas ilimitadas”, promete-se “retorno ilimitado”, mas o dinheiro não aparece. Alega-se que a “boa renda” depende do recrutamento de novos associados ou parceiros, e não das efetivas “vendas” das efetivas “mercadorias”. A apresentação da “oportunidade” é feita de forma vaga, mas “convincente” — cheia de depoimentos sobre “experiências” e testemunhos de “sucessos”. Tudo sob medida para quem acredita que dinheiro cai do céu, dá em árvore ou brota do chão.

'Empurrãozinho'

A tese do “empurrãozinho” é uma linha de pensamento e comportamento defendida pelo economista Richard Thaler (ex-assessor do ex-presidente Barack Obama). A ideia é ajudar pessoas a fazer as escolhas certas e a seguir as direções certas. Thaler entende que a economia trata os seres humanos como se eles já nascessem preparados, espertos ou sábios sobre os seus próprios interesses. O problema é que nós não somos assim. Comemos demais, bebemos demais, gastamos demais, mas não vamos à academia o bastante e não poupamos o suficiente. O “empurrãozinho” visa apontar e estimular as coisas certas a fazer.

Educação financeira I

Os mercados financeiros ou de ações funcionam como observadores, medidores da saúde monetária do governo ou do país — ou do potencial produtivo e lucrativo do setor privado. Por isso é relevante saber quem será ministro, quem será presidente, quem vai comandar uma grande estatal, quem vai dirigir uma grande companhia — é tão importante como saber quem vai treinar o seu time ou quem vai protagonizar a próxima novela. O sobe-e-desce da Bolsa ou do dólar diz muito sobre a estabilidade ou a instabilidade do seu emprego, por exemplo.

Educação financeira II

Destaco isso porque muita gente me pergunta por que se preocupar com os mercados financeiros ou de ações? De que vale saber se o dólar subiu ou se a Bolsa caiu, se eu não tenho esses investimentos? Aqui vai mais uma explicação “sustentável”: os mercados são importantes mesmo para quem não tem moedas norte-americana ou europeia nem papéis brasileiros, assim como a Amazônia é vital mesmo para quem não mora na floresta. Todos precisamos respirar essa ideia. Ela se chama “Educação Financeira”. Paz e Felicidades! Merecemos!

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