Proprietários de sonhos

Por Ana Cecília Romeu Publicitária e escritora

Em uma rede social da internet, fui colocada em grupo virtual de mulheres cujo objetivo em comum gira em torno de dicas domésticas e família. A princípio, não me interessei por não perceber assuntos de minha prioridade, como a literatura e as artes. Mas, por curiosidade e por entender que temos que ser acessíveis e essa "acessibilidade" significa também percorrer universos diferentes, permaneci. Por lá, aprendi que se arear o fogão com pasta de dente e as chaleiras com sabonete branco o resultado será, literalmente, brilhante. Todavia encontrei mais...

A postagem que me fez ficar nesse grupo foi o de uma senhora, aparentando uns 60 anos, dizendo que havia realizado seu sonho. Na foto desfocada, ela abraçava uma máquina de lavar roupas. E completou que nunca tinha tido uma em toda sua vida. Confesso que me emocionei e refleti muito sobre aquela postagem.

Há pessoas com problemas reais e desejos reais. Estamos num país em que ainda existe fome e onde uma parte expressiva da população está abaixo da linha da pobreza. Posso almejar conhecer Santorini, na Grécia, ou Positano, na Itália, e alguém sonhar com um colchão macio, um carro que funcione, a máquina disso ou daquilo, um lugar para morar, todas as refeições do dia, ou apenas saúde, que na verdade é tudo.

A torre de marfim impede de olharmos com nitidez o que parece estar abaixo dos nossos olhos, mas está tão próximo. Somos diferentes, com grau de necessidade e expectativas diversas. E o pequeno mundo de cada um deve ser respeitado.

Como na clássica música 'Unloveable', da banda inglesa The Smiths: "Não tenho muito nesta vida, mas tome isto, é seu." Alertando que se pode oferecer a presença do que se conseguiu e que isso é uma forma de oferecermos a nós mesmos. Afinal, é a ausência material ou não que nos impulsiona, nos movimenta e oportuniza o sentido.

Se tem algo que ninguém pode nos tirar é o sonho. Seja em Santorini ou abraçado à maquina de lavar roupas. Nossos sonhos são do tamanho exato do universo que construímos, por isso cabem nas linhas de nossas mãos.

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