Crise e alta inflação no país põem em risco ganhos da classe C

Desemprego e deterioração da renda do trabalho atingirão mais as famílias de menor poder aquisitivo, ressaltam analistas

Por O Dia

Rio - O atual cenário de desaquecimento da atividade econômica e inflação alta vai afetar diretamente as famílias de menor poder aquisitivo, as mesmas que conseguiram ascender na pirâmide social nos últimos 10 anos, graças, principalmente, ao aumento da renda do trabalho. Para analistas, os principais efeitos da estagflação sobre as classes média e baixa serão a deterioração da renda, o desemprego e o aumento da informalidade.

A renda originária do trabalho responde hoje, na média, por 78,5% do total da massa de rendimentos dos brasileiros, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2013 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2004, esse percentual era menor, de 77,5%. O aumento da renda possibilitou o processo de mobilidade social das famílias nos últimos 10 anos, com destaque para as classes A, B e C.

A participação da renda do trabalho entre as classes A e B passou de 78,9% em 2004 para 82,4%, em 2013. Movimento similar aconteceu na C, onde o trabalho, que respondia por 78,5% dos rendimentos, passou a representar 78,8%. Com o avanço do desemprego, cuja taxa mensal de desocupação subiu de 5,3% para 5,9% em fevereiro deste ano, de acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego (PME/IBGE), aumentam os riscos de um eventual retrocesso social das classes médias e baixas, conforme aponta a economista sênior do Bradesco Ana Maria Bonomi Barufi.

“Em momentos de crise e recessão econômica, observamos que as parcelas da população de renda mais baixa são as primeiras a serem afetadas na estabilidade de emprego e condições de trabalho mais favoráveis”, diz Barufi.

“A renda do trabalho é um importante componente de rendimento dessas famílias. Quando há a perda do emprego de algum membro, isso afeta diretamente toda a estrutura familiar”, acrescenta a economista, que ressalta o aumento do fluxo de trabalhadores desempregados para a informalidade nessas ocasiões.

Pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), Rodrigo Leandro de Moura explica que os últimos 10 anos foram acompanhados por um processo de escolarização forte, quando uma massa de trabalhadores conseguiu completar os níveis fundamental e médio. No entanto, por estarem em maior número, esses trabalhadores acabam sendo os primeiros alvos de demissão.
“Em momentos de estagflação, quem costuma sofrer mais são os mais pobres e menos qualificados. E eu incluiria também os trabalhadores da classe C, aqueles que obtiveram uma qualificação mediana e hoje formam a grande massa de trabalhadores”, avalia Moura.

A recessão, aliada à inflação alta, também freia reajustes salariais reais. Ao mesmo tempo, o desemprego crescente reduz o poder de barganha dos sindicatos por avanços nas remunerações. Esse processo de compressão salarial foi, inclusive, constatado pela Pnad Contínua Mensal do IBGE. O rendimento médio real habitual da população ocupada cresceu menos, apenas 1,1%, no trimestre dez/2014-fev/2015 na comparação com dez/13-fev/2014. No trimestre móvel finalizado em janeiro de 2015, frente ao mesmo período encerrado em janeiro de 2014, a expansão havia sido de 2,1%.

“Há um cenário de renda sendo corroída pela inflação alta e a impossibilidade de reajustes salariais efetivos. Teremos neste ano um jogo duplo entre sindicatos e empresários, em que haverá a troca de uma moderação dos reajustes pela preservação dos empregos”, projeta o economista Claudio Dedecca.

Para Rodrigo Leandro de Moura, da FGV/Ibre, além da menor disponibilidade de renda para consumir produtos supérfluos, serviços e lazer, a classe C também deve reduzir seus investimentos em educação. “Em geral, as crises levam a população a investir em qualificação ou cursos preparatórios para concurso. Mas o ajuste fiscal deve minguar também esse movimento”, diz Moura.

Mas segundo Ana Maria Barufi, do Bradesco, depois da tempestade, as classes média e baixa deverão retomar a posição perdida na pirâmide social. “Temos a expectativa de que, com as medidas fiscais em curso, a economia voltará a acelerar. Apesar da perda de emprego no curto prazo, esperamos um retorno das conquistas sociais obtidas ”, avalia.

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