Produtores de café que rezaram por chuva agora temem dilúvio no Brasil

A seca no Brasil tornou o café arábica a commodity de melhor desempenho neste ano. Agora, os produtores enfrentam fortes chuvas que mais uma vez ameaçam as lavouras

Por O Dia

A seca no Brasil tornou o café arábica a commodity de melhor desempenho neste ano. Agora, os produtores enfrentam fortes chuvas que uma vez mais ameaçam as lavouras.

O inédito período de três meses quase sem umidade prejudicou as perspectivas para a colheita do maior produtor mundial, sinalizando a primeira escassez global em cinco anos, segundo a corretora Marex Spectron. Considerando que os produtores colhem a maior parte do café entre maio e julho, a Somar Meteorologia prevê que o fenômeno El Niño provocará chuvas suficientes para causar mais danos.

Hugo Villas-Boas estima que as árvores dos 160 hectares que ele possui perto de Guaxupé, Minas Gerais, renderão até 30% menos por causa da estiagem. O fazendeiro de 64 anos de idade disse que as chuvas do meio do ano provocarão “perdas piores”. Os preços, que quase dobraram neste ano e chegaram à maior alta em 26 meses, podem subir mais 19% até o final de dezembro, para US$ 2,54 a libra-peso (0,454 quilo), segundo pesquisa da Bloomberg com 19 analistas, ampliando os custos para clientes como a Nestlé SA.

“Considerando os desafios climáticos, veremos um movimento altista de preço por um período mais longo”, disse Paul Christopher, diretor de estratégia internacional da Wells Fargo Advisors em St. Louis, empresa que gerencia US$ 1,4 trilhão.

O café arábica subiu 91 por cento neste ano, para US$ 2,1125, na ICE Futures U.S., em Nova York. É o maior aumento entre as 24 commodities monitoradas pelo índice Standard Poor’s GSCI Spot, que teve incremento de 4,2%. O índice de ações MSCI All-Country World subiu 1,1% desde o final de dezembro, enquanto o Bloomberg Treasury Bond Index ganhou 2,2%.

Menos grãos

A colheita no Brasil, que responde por mais de um terço da produção mundial, cairá mais do que o esperado na temporada 2014-2015, para 49 milhões de sacas, “com o risco de que haja um número ainda mais baixo”, disse a Marex Spectron, que tem sede em Londres, em um relatório com data de 10 de abril. O volume é menor que uma previsão feita em janeiro, de 55 milhões, e também que o da colheita do ano passado, de 53,3 milhões.

Esse declínio deixará a produção global 7,1 milhões de sacas abaixo da demanda, disse a Marex Spectron. Este seria o maior déficit desde a temporada 2009-2010, mostram dados do Departamento de Agricultura dos EUA. A Volcafé, unidade da trader de commodities ED&F Man Holdings Ltd., disse em um relatório com data de 22 de abril que o Brasil alcançará 45,5 milhões de sacas, deixando o déficit da produção ainda maior, em um total de 11 milhões de sacas de 60 quilos.

Os gerentes financeiros estão apostando que os preços continuarão subindo, com uma posição líquida longa de 38.143 contratos futuros e de opções até 15 de abril, mais que o dobro dos dois meses anteriores, mostram dados da Comissão de Comércio de Futuros de Commodities dos EUA. Os especuladores se tornaram altistas no início de fevereiro, encerrando 18 meses consecutivos de apostas baixistas.

A maior parte do dano se deu nas colheitas do café tipo arábica, que respondeu por 57 por cento da oferta global na temporada mais recente e que produz os grãos de alta qualidade utilizados pela rede de cafeterias Starbucks Corp. A Volcafé estimou que a colheita do arábica no Brasil encolherá 18%, para 28,4 milhões de sacas, volume abaixo da previsão de janeiro, de 34,6 milhões. Os grãos tipo robusta, que têm qualidade inferior e são usados para o café instantâneo, não foram afetados.

Rezando pelo clima

No Brasil, os mesmos agricultores que rezaram pela chuva no início do ano agora desejam que o clima continue seco.

“A alta nos preços não será suficiente para ajudar os produtores que perderam sua produção”, disse Carlos Alberto Paulino da Costa, chefe da Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé Ltda, conhecida como Cooxupé, a maior cooperativa desse tipo do Brasil. “Se tivermos chuvas em maio, junho e julho, as perdas podem ser ainda piores”.

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