Em alta, desemprego na indústria está longe mudar de trajetória

Após primeiro trimestre positivo, desde abril a indústria de transformação não registra saldo positivo de vagas

Por O Dia

A indústria de transformação bem que tentou, mas não conseguiu segurar as demissões com o desempenho fraco no primeiro semestre deste ano. Apesar das reduções na margem e na capacidade instalada, o setor entra agora no que os especialistas chamam de “último degrau” de ajuste. Essa é a conclusão que economistas apresentam na última edição da revista “Conjuntura Econômica”, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), que circula a partir de hoje.

Com queda de 2,8% na produção total até julho, segundo a Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (FIM-PF) do IBGE, a indústria de transformação intensificou nos últimos meses o processo de redução do pessoal ocupado. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho apontam que, desde abril, o setor não registra nenhum mês com saldo positivo entre contratações e demissões. De abril até agosto foram fechadas 80.016 vagas, volume maior do que uma Petrobras inteira — a estatal tinha pouco mais de 67 mil empregados em agosto.

Embora em agosto a intensidade da queda tenha diminuído (-0,05%), Aloisio Campelo, superintendente adjunto de Ciclos Econômicos do Ibre diz que o ajuste está longe de terminar — ao menos na indústria de transformação. Ele explica que a série histórica do Indicador de Emprego Previsto apurado mensalmente pelo Ibre, como parte da Sondagem da Indústria de Transformação, mostra uma curva evolutiva que antecipa os momentos de alta e de baixa do emprego industrial apurados pelo Caged. “Desde maio, o Indicador revela que o ímpeto de contratações dos empresários vem posicionando-se abaixo de 100, o que significa que as empresas pretendem reduzir pessoal nos três meses seguintes. Abaixo de 100 é desastre”, resume Campelo.

Campelo enxerga as causas conjunturais do problema vindo desde o primeiro semestre do ano passado, começando pelo aperto da taxa de juros básica (Selic). Ele lembra que a sequência iniciada em abril de 2013 elevou o preço básico do dinheiro de 7,25% para 11% ao ano em abril último.

Quando se olha apenas para São Paulo, a maior concentração industrial do país, o ajuste da indústria é bem mais forte. Segundo o Caged, a indústria paulista encerrou agosto com demissões líquidas de 12.099 vagas formais ao longo do ano.
Os números apurados pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) são ainda maiores: 31,5 mil vagas fechadas nos oito meses de 2014 até agosto, sendo que os setores de máquinas e equipamentos (14 mil) e de veículos automotores (17,6 mil) cortaram juntos mais empregos do que o saldo líquido do balanço entre todos os setores. Outro segmento de uso intensivo em mão de obra que tem sofrido é o de calçados.

Diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Fiesp, Paulo Francini diz que os cortes mostram que a situação chegou a tal ponto que as empresas foram obrigadas a ignorar os elevados custos dde demissão no Brasil — segundo seus cálculos, cinco vezes o salário do empregado — e o custo adicional de uma eventual recontratação futura, se o trabalhador já não tiver migrado para outro setor.

Já o economista Rodrigo Lobo, da coordenação de Indústria do IBGE, aponta uma coleção de números ruins. Ele afirma que o grupo “meios de transporte”, que inclui veículos automotores, veio desde dezembro escalando a lista das maiores influências negativas para a queda do emprego industrial, saindo do oitavo lugar para alcançar o primeiro em junho, mantido no mês seguinte. Segundo Lobo, isso mostra que já não eram suficientes as ações protelatórias, como férias coletivas e banco de horas, usadas pelo setor.

“O cenário não muda pelo menos até depois das eleições, por causa da incerteza política que se alia ao baixo crescimento com inflação elevada; as contas externas pressionando; e a taxa de juros já muito elevada. Teremos que fazer um ajuste e ele terá que vir pelo lado da política fiscal”, analisa o gerente de Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), economista Guilherme Mercês.

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