Duas visões e a mesma economia

A economia brasileira entrou de vez na alça de mira dos analistas estrangeiros

Por O Dia

Ontem, o ataque veio do Fundo Monetário Internacional, que reduziu de 2,3% para 1,8% sua estimativa sobre o crescimento do PIB este ano. Na opinião do FMI, o mau desempenho se deve “às restrições na oferta de infraestrutura e ao fraco crescimento no investimento privado”, que se reflete na falta de competitividade e na baixa confiança empresarial.

Enquanto vê o Brasil andando de lado, o Fundo prevê forte expansão para os nossos vizinhos de América do Sul, a saber taxas de 5,5% para o Peru, de 4,5% para a Colômbia e 3,6% para o Chile. A média de crescimento na região e no Caribe projetada em 2,5%. Para a inflação, a previsão se assemelha à das principais instituições financeiras nacionais, perto do teto da meta de 6,5%.

Podia ser pior. Nos últimos tempos, o mau humor com o Brasil no exterior não para de crescer. A imprensa especializada bate sem dó na política econômica do governo Dilma Rousseff. Se há poucas semanas “The Economist” pediu a cabeça do ministro Guido Mantega, nessa segunda-feira o “Financial Times” afirmou que já estão soando os dobres de finados da matriz econômica adotada pela Fazenda, com o aval da Presidência.

Segundo o jornalão britânico, o modelo keynesiano inspirado nos economistas da Unicamp tornou “as coisas piores, sob todos os ângulos”. As medidas não ortodoxas, como os subsídios aos combustíveis e às tarifas de energia, jogaram lenha na fogueira da inflação, sem contribuir para o crescimento do PIB. O governo brasileiro, diz o FT, está obcecado com questões cíclicas e não ataca os problemas estruturais.

Lá fora o diagnóstico é cada vez mais sombrio, mas aqui dentro a percepção é bem menos pessimista. Veja-se, por exemplo, a mudança de tom do sempre polêmico ex-ministro Delfim Netto. No início do ano, ele trombeteou que o Brasil corria o risco de enfrentar uma tempestade perfeita, com inflação em alta, fuga de investimentos e desvalorização do real.

O cenário não se confirmou, principalmente porque não aconteceu a alta dos juros nos EUA, que abalaria as moedas dos países emergentes. Diante disso, Delfim continua a dizer que a economia vive uma situação incômoda, mas aposta na volta por cima. “Nada indica que caminhamos para o apocalipse ou que vamos perder o controle da política econômica”. Todos os problemas são passíveis de se enfrentar”.

Para quem não confia na visão do ex-ministro da Fazenda, há fatores bem mais concretos a favor da economia nacional. Ontem, ao analisar o crescimento da produção industrial de 1,3% em janeiro e fevereiro, o IBGE ressaltou o resultado positivo em nove dos 14 Estados pesquisados. Sete cresceram acima da média nacional, com destaque para Pernambuco (8,3%) e Amazonas (6%).

A nota negativa foi São Paulo, com queda de 2,4%. Para o IBGE, há sinais evidentes de aumento do ritmo da indústria brasileira. O presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, assina em baixo. Em evento em São Paulo, ele informou que, após consultar seus gerentes, concluiu que a conjuntura é mais favorável do que pintam os economistas. E, por isso, o banco decidiu assumir mais riscos.

O mais curioso no descolamento entre as avaliações externas e internas é que o “Financial Times” e “The Economist” têm entre suas fontes de informação exatamente os grandes bancos.


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