O contágio da reeleição

Ao instituir a renovação do mandato em 1997, os legisladores queriam beneficiar o PSDB, mas acabaram por pavimentar o caminho do PT

Por O Dia

Acorrupção na FIFA e na CBF é o assunto da hora. Mas não é exagero dizer que ninguém ficou surpreso com as denúncias da Justiça americana. Aqui no país do futebol, fala-se há muito anos sobre falcatruas cometidas por dirigentes dos grandes clubes e das entidades. A revista Placar, por exemplo, ganhou um Prêmio Esso em 1982 com uma reportagem bomba sobre a Máfia da Loteria Esportiva, que já mostrava o lado obscuro do mundo da bola. Mais recentemente, saíram notícias sobre a negociata que marcou a escolha do Catar para sede da Copa de 2022. Correu muito dinheiro por baixo do pano para comprar os votos que aprovaram a realização do torneio no meio do deserto e a temperaturas infernais. Diante do escândalo que tirou do páreo os Estados Unidos, o FBI foi acionado e deu no que deu. José Maria Marin não escapou da prisão e Ricardo Teixeira corre a mesma ameaça.

Mas futebol é especialidade de Juca Kfouri, José Trajano e Fernando Calazans, que certamente não deixarão os cartolas em paz. Em um aspecto, porém, o vexame da entidade de Zurique remete aos nossos (maus) costumes políticos. Sem dúvida alguma, a total falta de transparência das entidades esportivas tem origem nos mandatos quase vitalícios dos dirigentes esportivos. Eles permanecem nos cargos por décadas, cercados de áulicos e não dão satisfação a ninguém. Nestas estruturas viciadas, a consequência só pode ser a corrupção e os desvios de verbas nos contatos de publicidade e transmissão de TV. Não é por acaso que a Medida Provisória sobre a renegociação da dívida dos clubes de futebol cuidou de exigir o fim da reeleição nas federações e confederações.

Também não foi por acaso que a Câmara, por 452 votos a favor e 19 contra, decidiu acabar com a reeleição de presidente da República, governador e prefeito. Na prática, não funcionou a ideia de que, com dois mandatos seguidos, o governante tem capacidade de traçar metas de médio prazo e executar programas em benefício da população. Os projetos visam, sim, à reeleição. Embora refratários a uma reforma política mais abrangente, os deputados entenderam que a renovação dos mandatos de cargos executivos gerou graves distorções. Uma delas é o uso da máquina pública para assegurar a recondução. Outra é a preocupação dos governantes em acionar todos os meios para assegurar o novo mandato. Como disse Eduardo Cunha, que conhece bem as manhas da política, “o problema maior é das prefeituras, pois o prefeito acaba exercendo o mandato em função da renovação”.

A alternância no poder faz bem à democracia. Mesmo nos Estados Unidos, onde prevalece o bipartidarismo, raramente o mesmo partido consegue estender sua hegemonia por três mandatos. Lá os presidentes costumam se reeleger, mas dificilmente fazem o sucessor. Na experiência brasileira de 17 anos, Fernando Henrique Cardoso não teve força para eleger o tucano José Serra. Já Lula, após dois mandatos, elegeu com facilidade Dilma Rousseff e esta, por sua vez, conquistou o segundo mandato. O resultado é que o PT vai ocupar a Presidência da República por 16 anos seguidos e tentará chegar aos 20 anos no poder com a volta de Lula em 2018.

Não era bem esta a intenção dos legisladores ao aprovar, em junho de 1997, a reeleição para cargos executivos. Queriam beneficiar o PSDB, mas acabaram por pavimentar o caminho do PT. Na época, houve acusação de compra de votos. Mais ou menos o que aconteceu na escolha do Catar para a Copa de 2022.

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