Levy, o estranho no ninho

Embora não seja efeito da gestão de Levy, o mau desempenho da economia gera preocupação. Se a situação está ruim, o que esperar dos próximos meses?

Por O Dia

Começa na quinta-feira, em Salvador, o 5º Congresso Nacional do PT. Como o partido de Lula vive dias muito difíceis, com imagem bastante desgastada, cresce a expectativa sobre os rumos que serão apontados pelas delegações estaduais. Dá-se como certo que a política econômica ortodoxa do ministro Joaquim Levy será alvo de fortes críticas. Além de não ser filiado ao PT, Levy, que tem PHD pela Universidade de Chicago, representa o pensamento monetarista e liberal mais afim com os teóricos do PSDB. Já a maioria dos economistas petistas (inclusive Guido Mantega) bebe nas fontes heterodoxas e tem como principal referência as ideias fundamentalistas de John Maynard Keynes, o Lorde Keynes. É natural, portanto, que a presença de Levy no governo Dilma sofra forte rejeição por parte dos dirigentes do PT. O que deve se refletir nos debates e nas conclusões de Salvador.

Precavida, a presidente Dilma Rousseff se antecipou e saiu em defesa de seu ministro da Fazenda. Em entrevista ao jornal “O Estado de S.Paulo”, ela considerou “injustas” as críticas a Levy porque o ajuste fiscal não é responsabilidade exclusiva dele. “Não se pode fazer isso, criar um judas. Isso é mais fácil. É bem típico e uma forma errada de resolver o problema”, ponderou a presidente. E em seguida justificou as medidas austeras de seu segundo mandato: “Vamos fazer o ajuste que tem de ser forte o suficiente para permitir que a gente volte a crescer. Não pode ser nem excessivo, nem limitado”. A retomada do crescimento, previu, vai começar com o ajuste e se complementar com medidas a serem anunciadas até agosto. Uma delas é o Programa de Investimento em Logística que será divulgado hoje.

Apesar da defesa veemente de Dilma, pesa contra o garrote fiscal de Levy o mau desempenho da economia neste primeiro semestre. Embora não seja resultado de sua gestão, gera preocupação sobre o futuro, principalmente para o setor industrial. Se a situação está ruim hoje, o que esperar dos próximos meses?Ontem, a Anfavea informou que a produção de veículos de janeiro a maio caiu 19,1% em relação ao mesmo período do ano passado. Em maio, as montadoras produziram 210 mil unidades, numa queda de 25,3% sobre o mesmo mês de 2014. O reflexo no nível de emprego já deixa sua marca. Estudo da Anfavea mostra que 25 mil metalúrgicos estão em regime de layoff, férias coletivas e licenças neste mês. Estas medidas foram adotadas pelas montadoras para conter a produção e regular o estoque. “O ajuste fiscal que ainda não foi aprovado impacta bastante o movimento das vendas e por isso tivemos que rever, pela segunda vez, as nossas projeções para o ano”, destacou o presidente da entidade, Luiz Moan.

Tanto o cenário é nebuloso que os economistas ouvidos pela pesquisa Focus do Banco Central voltaram a rever para pior suas estimativas sobre o PIB e a inflação. Pela oitava semana consecutiva, a previsão de inflação subiu, agora de 8,39% para 8,46%. E a projeção de crescimento negativo do PIB arredondou-se de 1,27% para 1,3%. Diante destes números, serão inevitáveis os ataques de dirigentes petistas à atual política econômica. Sabe-se que o presidente do PT, Rui Falcão, fará o que for possível para conter os ânimos de seus correligionários. Certamente, ele vai exigir apoio do 5º Congresso à política econômica do governo Dilma. Mas Rui é homem de partido e não deve pôr a mão no fogo por Levy, um estranho no ninho.

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