Mundo dos negócios tem papel crucial nas mudanças para um capitalismo inclusivo

Artigo no Project Syndicate tem uma conclusão básica: ou se promove uma significativa redistribuição da prosperidade, ou “o apoio ao capitalismo pode desaparecer”

Por O Dia

O fim do século passado foi um período de extraordinários resultados econômicos, dentre os quais o crescimento global elevado, a expansão do comércio e a redução da pobreza. Mas a crise de 2008, e esta prolongada depressão, colocaram em dúvida a promessa de que estávamos no caminho seguro para uma maior prosperidade para todos. O resultado tem sido uma descrença da opinião pública mundial sobre as instituições políticas, econômicas e empresariais — uma situação perigosa, em um momento em que essas instituições são cruciais para realizar profundas mudanças de curso e evitar o crescente descontentamento com o capitalismo.

Um artigo publicado recentemente no Project Syndicate reproduziu algumas conclusões alarmantes de dois estudos. O primeiro, disponível no site da Oxfam “Working for the Few”), e já comentado nesta coluna: 1,2 bilhão dos mais pobres da sociedade global e 1 bilhão dos mais ricos respondem, respectivamente, por 1% e por 72% do consumo global; e 85 dos indivíduos mais abastados acumularam uma riqueza correspondente à de 3,5 bilhões de pessoas nas bases inferiores da pirâmide; por fim, enquanto há 1,4 bilhão de adultos obesos, um em cada oito pessoas não tem o suficiente para comer ao longo do dia. A segunda série de dados reflete o desalento e a descrença no sistema: o “barômetro político Edelman” (ver edelmantrust.com) mostra que o grau de confiança nas instituições se encontra nos níveis mais baixos da série publicada desde 2000: em 21 das 26 economias analisadas, menos da metade da população confia em seus governos; em 16 das 26 nações, a maioria acredita no que dizem as instituições privadas e seus líderes — sendo que setor financeiro é, de longe, o mais desacreditado.

O artigo tem uma conclusão básica: ou se promove uma significativa redistribuição da prosperidade, ou “o apoio ao capitalismo pode desaparecer”. O alerta seria mais um entre tantos outros, não fora por dois importantes “detalhes”. Em primeiro lugar, seus autores são a nata do mundo dos negócios globais: Paul Polman é presidente da Unilever, terceira maior conglomerado multinacional de produtos de consumo; e Lynn Forester Rothschild é CEO da E. L. Rothschild, instituição com investimentos bilionários no mundo todo em uma série de setores. Em segundo lugar, o artigo, intitulado “A ameaça capitalista ao capitalismo”, dá publicidade a uma reunião, a ser realizada hoje, dia 27. Ela congregará nada menos dos que os executivos de empresas que representam aproximadamente um terço (ou US$ 30 trilhões) de recursos para investimento do mundo. A ideia é debater mudanças no sentido de um “capitalismo consciente, um capitalismo moral, e um capitalismo inclusivo”.

Como chegar-se a um capitalismo mais inclusivo? As experiências exitosas de crescimento inclusivo — seja nas economias europeias no pós-guerra, seja mais recentemente no Brasil e outras nações latino-americanas — se ancoraram em duas bases: no aumento dos salários reais de base (preferencialmente acompanhado por aumento da produtividade do trabalho) e em programas de transferência de renda. Promover essas mudanças em nível global, no contexto econômico atual, implica enfrentar enormes desafios — e aqui cito três.

O primeiro se refere ao fato de grande parte da prosperidade global nos últimos 30 anos ter-se calcado num reorganização da divisão internacional do trabalho, onde elevar os “salários reais mais baixos” não era prioridade pública — nem muito menos privada. Os exemplos clássicos se observam nas duas maiores economias mundiais. Nos Estados Unidos, o consumo e o consumismo cresceram rapidamente nas ultimas décadas, enquanto os salários reais da classe média se estagnavam ou mesmo se reduziam — o que só foi possível devido ao espetacular aumento da dívida das famílias, com as consequências que estão aí. Na China, a manutenção de salários reais baixos, mesmo em um contexto de elevado crescimento da produtividade, gerou ganhos de competitividade que a tornaram imbatível — mesmo frente a países industriais, com mão de obra altamente qualificada e produtiva. Reduzir a desigualdade simultaneamente nos dois países exigiria promover, de forma coordenada, aumentos dos salários reais nas suas bases da pirâmide, o que exige repensar as cadeias de produção globais e, portanto, o setor produtivo privado mundial. (Exigiria também redefinir os padrões de consumo, especialmente nos Estados Unidos — mas esse é todo um capítulo à parte).

Programas de transferências para diminuir a desigualdade global requerem instrumentos adequados, em uma nova arquitetura financeira. Na atual, é modesto o tamanho relativo das instituições internacionais (por exemplo, o Banco Mundial) e das fundações privadas (Fundacao Gates, por exemplo) — e diminuto, se adicionamos as necessidade de financiamento de infraestrutura. E, mesmo nessas instituições multilaterais, o sistema de criação de conhecimento continua ainda profundamente centrado nas suas sedes e nos centros de excelência de economias industriais, com baixo grau de transferência.

Por fim, o sistema de incentivos pode ser o desafio mais significativo, e sua mudança depende muito das lideranças privadas. Como já mencionei nesta coluna, parte significativa do atual sistema foi perversamente moldada por uma desregulamentação que abriu as portas para a consolidação e criação de grandes instituições financeiras. Estas, por sua vez, utilizaram sua crescente capacidade de atração dos melhores quadros, sua força inovadora e seu poder de lobby para alavancar ainda mais seus recursos com operações de crescente risco. Tudo isso ampliou enormemente a lucratividade do setor, mas também a fragilidade sistêmica da economia global. De quebra, esse processo aumentou o curto prazismo e o rentismo entre as lideranças privadas globais, reduzindo os incentivos para que o conhecimento e a inovação gerados pelos mecanismos de mercados sejam colocados, primordialmente, a serviço do aumento da produtividade e da melhoria do bem-estar da maioria da população – ou seja, o poder criativo da “mão invisível” de Adam Smith. E mesmo nas crises, esse sistema perverso de incentivos prevalece, porque qualquer tentativa de reforma regulatória esbarra com fortes resistências, dentro e fora do setor.

Os desafios são grandes, mas não há duvida de que o mundo dos negócios globais está atento à necessidade de mudanças no sentido de um capitalismo inclusivo e sabe que seu papel nestas mudanças é crucial. Muitos estão motivados, sem dúvida, por razões de cunho moral, outros por instinto de sobrevivência. Seja qual for o motivo, iniciativas de lideranças empresariais globais não são somente bem-vindas: elas são vitais para criar o caminho de uma sociedade global mais justa e politicamente mais coesa, o que será por sua vez fundamental para enfrentarmos as diversas crises que vivemos.

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