A relevância do Banco Mundial

A criação do Banco dos Brics tem gerado intenso debate sobre o Grupo Banco Mundial e sua relevância para o Brasil e para o mundo

Por O Dia

O interessante é que essa discussão tem sido também intensa dentro da própria instituição, desde a eleição do novo presidente Jim Yong Kim, que deslanchou recentemente uma enorme reforma interna visando um papel mais proeminente da instituição no desenvolvimento no mundo. Terá sucesso?

O Grupo Banco Mundial constitui-se de quatro agências voltadas para o desenvolvimento. O Bird é uma mescla de banco e cooperativa internacional, já que capta junto ao mercado de capitais e empresta a países de renda média a um custo baixo, possibilitado por um capital exigível bem mais elevado que o subscrito e pela cláusula de credor principal que possui com todos seus clientes/membros.

Seu lado “cooperativa” vem do fato de a instituição cobrar o mesmo custo para todos os clientes, apesar de terem ratings e custos de transação distintos. Isso significa que, por um lado, alguns clientes grandes (como, por exemplo, o Brasil e a China) geram lucros significativos para a instituição, utilizados para subsidiar empréstimos para países com ratings mais baixos e custos de operação maiores. Por outro lado, o Bird também faz transferências a para a AID (Associação Internacional de Desenvolvimento), que é um fundo de doações voltado para o financiamento de países mais pobres (a maioria na África, mas também em todos os continentes), e que tem tido como maiores doadores os Estados Unidos e a Inglaterra — mas também, em menor escala, economias emergentes, inclusive o Brasil.

O IFC (Corporação Financeira Internacional) por sua vez financia o setor privado, não possui capital exigível, e, portanto, capta e empresta a taxas de juros mais elevadas. Mesmo assim, também utiliza seus lucros para financiar operações com economias de risco maior e também realiza transferências para a AID. Por último, a Miga (Agência Multilateral de Garantia de Investimentos) é uma agência de garantia de risco político.

A percepção da perda de relevância do grupo está relacionada a pelo menos quatro fatores: uma estrutura de governança anacrônica em vista da atual geopolítica mundial; uma agenda e um mandato que foram ampliados ao longo da sua existência, em função das novas necessidades do desenvolvimento, mas também das prioridades determinadas pelos seus maiores acionistas; a fragmentação das operações entre as suas principais agências; e uma base de capital e capacidade financeira extremamente limitadas, face às necessidades dos seus clientes.

Esses fatores são interrelacionados. A estrutura de governança gera enormes distorções sobre o mandato, as operações e mesmo a estrutura operacional. Isto porque o controle acionário é de um grupo relativamente limitado de economias em desenvolvimento, que também possuem maioria no Conselho de Administração. Com isso, as prioridades estratégicas, políticas operacionais e mesmo a alocação de recursos passam a refletir muito mais as perspectivas e visões estabelecidas do Norte do que necessariamente as necessidades dos países em desenvolvimento. Também refletindo essa governança desbalanceada, a estrutura corporativa fragmentou-se ao longo dos anos, e setores internos às quatro agências passam a representar “as paixões e os interesses” dos distintos acionistas majoritários, inclusive com orçamentos financiados por fundos fiduciários dos mesmos.

O excessivo poder de voto (e de veto) das economias desenvolvidas também termina por gerar fortes restrições a reformas do poder de voto, que não só aumentariam a legitimidade da instituição mas também poderiam permitir uma recapitalização das instituições com recursos de economias emergentes, como os Brics. Foi exatamente isso que ocorreu com a reforma de 2008, e que deverá ter sua primeira revisão periódica em 2015.

Ao longo dos cinco anos de mandato de Robert Zoellick como presidente, o Grupo cumpriu o mandato do G20 e ampliou enormemente seus empréstimos como contribuição do esforço anticíclico global. Com isto, Jim Yong Kim, eleito em 2012, herdou instituições com base de capital insuficiente, fragmentadas internamente e com insuficiente sinergia entre elas, com mandatos sobrepostos e muitas vezes conflitantes e com um orçamento gigante — um verdadeiro “House of Cards” com mais de 10 mil funcionários. Seu primeiro ato de reforma foi “re-ancorar” a instituição em somente dois mandatos fundamentais: a redução da pobreza extrema e da desigualdade.

Assim, como outros presidentes fizeram, elaborou com o auxílio de consultores externos e ampla consulta interna um plano de reestruturação significativa, voltado a romper com os “feudos”, facilitar os fluxos de comando, aumentar a sinergia entre as instituições do Grupo e estimular os fluxos de informações e conhecimento. Junto com a nova estrutura organizacional, renovou a liderança administrativa através de seleções competitivas de dezenas de posições na alta administração do Banco. Por fim, lançou uma iniciativa ousada de redução de custos, voltada primordialmente a aumentar as receitas líquidas e a base de capital do Grupo.

As reformas de Kim parecem ser condição necessária para um Grupo Banco Mundial mais relevante, e por isso nós acionistas a apoiamos. Mas uma pergunta sempre fica no ar: são suficientes? Se minha análise estiver correta, no longo prazo a governança desequilibrada é a raiz dos demais problemas. Sem mudá-la, rapidamente as mesma distorções, os mesmos vícios e a mesma cultura Norte-Sul se reproduzirão. Os Brics apoiaram e torcemos pelo sucesso do presidente Jim Kim, e esperamos contar com ele na aspiração por um Grupo Banco Mundial mais democrático e inclusivo. Mas, pelo sim e pelo não, criamos o Novo Banco de Desenvolvimento.

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