Polêmicas envolvendo marcas fazem produtos serem retirados das lojas

Marca Sergio K foi acusada de homofobia com a linha de camisetas que fez para a Copa do Mundo

Por O Dia

Rio - Um moletom com manchas que lembram sangue, um pijama infantil parecido com o uniforme usado por judeus durante o Holocausto, na Segunda Guerra Mundial e uma camiseta que incentiva o consumo de bebida alcoólica. Onde começa e onde termina o direito de criar?

Nas últimas semanas, algumas marcas se viram em meio a polêmicas, como a Zara, que lançou uma roupa de dormir listrada com uma estrela e foi duramente criticada. A peça, para alguns, lembrava o uniforme usado pelos judeus nos campos de concentração nazistas. Para amenizar a situação, a empresa espanhola — que já tinha passado por um problema semelhante, em 2007, quando criou uma bolsa com um desenho de uma suástica — retirou a roupa das lojas com um pedido de desculpas.

Moletom ensanguentado da Urban OutfittersReprodução Internet

O mesmo foi feito pela americana Urban Outfitters, depois que ela movimentou as redes sociais ao vender um moletom com manchas que pareciam sangue, fazendo alusão ao Massacre de Kent State, de 1970, quando quatro estudantes foram mortos por integrantes da Guarda Nacional (reservistas norte-americanos atuantes em confrontos) durante protestos contra a Guerra do Vietnã. Já a marca paulista Sergio K foi acusada de homofobia com a linha de camisetas que fez para a Copa do Mundo e uma camiseta com uma palavra com erro de grafia gerou crise na Marisa.

“As pessoas precisam arrumar formas de chocar a sociedade. Algumas vezes, perde-se a mão, até por ingenuidade, mas em outros casos há uma clara intenção de criar visibilidade, mesmo que ela seja negativa”, comenta João Braga, professor de história da moda. Já a coordenadora do curso de Gestão de Moda da Fundação Getulio Vargas, Paula Acioli, acredita em uma infeliz coincidência.

“Não vejo sentido em uma marca como a Zara querer ganhar tal exposição negativa. A empresa deveria ter publicado imagens de xerifes norte-americanos, para demonstrar a origem de suas inspirações”, avalia Paula.

A jornalista Heloisa Marra engrossa o coro, ressaltando que o que a incomoda de verdade é pensar na mão de obra escrava por trás de algumas grifes. “Eu tenho um cansaço dessa patrulha ideológica em cima do que é feito na moda. Não associei o pijama ao uniforme. Talvez quem viveu esse drama identificou. Engraçado é pensar que o trabalho escravo, que já foi comprovado que existe, não gerou esse barulho todo.”

De origem judaica, a estilista Karina Sterenberg condena não só a criação da Zara, como o moletom da Urban Outfitters e as demais camisetas polêmicas. “Eu vejo esses exemplos e sinto um mal-estar. As pessoas estão pirando no intuito de chamar atenção. Nessas horas, eu me pergunto: como um casaco ensanguentado, uma blusa escrito ‘drink vodka’, ‘eat less’, ou com as cores do Brasil, um coração e um fio-dental no meio podem transformar o mundo em algo melhor?”, questiona. “Há um abuso do lema ‘falem mal mas falem de mim’. Uma blusa que incentiva a bebida ou a anorexia, para mim, é um assunto sério demais”, acrescenta a consultora de moda Lu Catoira.

Classificando a moda como uma forma de comunicação não verbal, João Braga ressalta que a banalização da dor virou ingrediente para erros e acertos nesse meio: “A verdade é que viramos uma sociedade insensível. Uma pessoa caída no chão não nos sensibiliza mais. As pessoas tentam inovar para criar algo diferente, o problema é perder o limite.”

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