Ricardo Cota: Minha Cara, minha vida

É preciso respeitar as rugas, os cabelos brancos, os traços riscados pelo tempo, sobretudo no cinema

Por O Dia

Meg Ryan na cena de ‘Harry e Sally’ em que simula um orgasmoReprodução de Internet

Rio - A primeira vez que tomei um choque com a plástica de uma atriz no cinema foi quando vi Meg Ryan recauchutada no filme ‘Em Carne Viva’, dirigido por Jane Campion em 2003. Ryan faz parte da minha prateleira de cabeceira. De tempos em tempos dou conferida em ‘Harry e Sally — Feitos um para o Outro’, deliciosa comédia de Rob Reiner, realizada em 1989, em que a atriz incorpora uma espécie de ícone da mulher moderna, ao mesmo tempo irresistivelmente doce e mordaz, conciliando delicadeza e consciência fatal da condição feminina. 

A sequência em que engole o perplexo Billy Crystal ao simular um triunfal orgasmo numa lanchonete tornou-se clássica. Adorável particularmente o desfecho em que a personagem conclui a simulação com um sorriso sapeca e questionador, revelando a irresistível malícia de cada mulher. Há ali um conjunto de expressões próprias, ricas em variáveis, digna do controle de uma boa atriz. Mas eis que então retorno ao rosto deformado, quase irreconhecível do filme dirigido por Jane Campion. Onde a sutileza, a graça, a humanidade e a particularidade da doce face de outrora? Fiquei exatamente como aquele rosto: chapado. A experiência transcinematográfica voltou a me inquietar recentemente com a chocante transformação de Renée Zellweger, que virou assunto midiático. Confesso que ainda agora olho para a foto e não reconheço a atriz de ‘O Diário de Bridget Jones’. 

A busca obsessiva por um ideal de beleza é tema que deixo aos cirurgiões e psicanalistas. Há tempos tanto os homens quanto as mulheres recorrem a botox, lipoaspirações, implantes e outros recursos, absolutamente legítimos, para sentirem-se mais belos, joviais e com a autoestima nos píncaros. No caso de atores e atrizes, isso fica ainda mais nítido, afinal o drible no tempo é funcional para quem não pode descuidar da aparência. 

Em todos os casos, o sintoma comum, este sim típico dos nossos tempos, é o da ausência de limites, que leva à diluição de uma personalidade própria em favor da padronização. Ado Kyrou, crítico grego naturalizado francês que fez história escrevendo para a ‘Positif’ nos anos 50, observou que o cinema é o cruel instantâneo da morte. 

Se por um lado preserva um momento para a eternidade, por outro, denuncia a sua absoluta perenidade. Tentar a qualquer custo driblar a ideia de que somos passageiros pode trazer consequências irreversíveis. Imagino quantas horas se gastam em divãs com pessoas que nitidamente queriam o melhor para si mas se sentem frustradas e sequer se reconhecem mais. 

Digo e repito: nada contra os artifícios. Afinal, vivemos na terra de Pitanguy e querer se manter belo ou bela é saudável.Não faço parte do coro misógino que aproveita trapalhadas plásticas para zombar de mulheres. Porém é preciso respeitar as rugas, os cabelos brancos, os traços riscados pelo tempo, sobretudo no cinema, no teatro, nas telenovelas e seriados. Do contrário, teremos uma geração de atores e atrizes deformados, sem viço e incapazes de exprimir a condição humana. Ou seja, uma geração sem velhos, pelo menos na aparência. E envelhecer, enfim, não é feio. Envelhecer é natural.

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