Estreia amanhã documentário ‘Sal da Terra’ sobre fotógrafo Sebastião Salgado

Filme indicado ao Oscar, marca reconciliação entre o fotógrafo e o filho Juliano, diretor do longa ao lado do cineasta alemão Wim Wenders

Por O Dia

Rio - Embarcar em uma expedição pela tribo Zo’e, no Pará, em 2009, parecia arriscado de mais para Juliano Ribeiro Salgado. Não porque ele se embrenharia na mata e entraria em contato com uma das tribos mais isoladas da Amazônia. O receio maior era de estar tão próximo de Sebastião Salgado, que, até então, conhecia mais como renomado fotógrafo do que como seu pai. Seria um momento importante. O que ninguém imaginava era que desse encontro nasceria ‘Sal da Terra’. Com estreia marcada para amanhã, o documentário conquistou não só a indicação ao Oscar, mas foi capaz de resgatar a relação que parecia perdida entre os dois. 

O fotógrafo Sebastião Salgado no documentário sobre sua obra%2C ‘Sal da Terra’%2C dirigido pelo filho Juliano e Wim WendersJuliano Ribeiro Salgado


“Acho que tinha muita raiva dele por causa de suas ausências”, revela o cineasta Juliano Salgado, que cresceu enquanto o pai passava longos períodos fora de casa — de meses e até anos —, se dedicando aos seus projetos. “Não conseguíamos terminar uma conversa sem brigar. Nossa relação não era boa. Por isso, achava bem perigoso entrar nessa viagem”, confessa.

Mas não era a primeira aventura de Sebastião que Juliano acompanhava. A pedidos da mãe, Lélia, quando ele ainda era adolescente, os dois foram juntos a Ruanda, Índia e França, país em que a família Salgado se estabeleceu após o golpe militar de 64. A diferença é que, entre essas lembranças da adolescência e a visita ao território Zo’e, passaram-se 25 anos. “Na época, eu nem queria ter feito essas viagens. Dessa vez, em 2009, tinha uma grande expectativa. Se, por um lado, foi incrível conhecer aquele lugar, por outro, achava que ia encontrar quem era ele (Sebastião), mas não encontrei. Foi frustrante.”

Juliano precisaria de ajuda para achar o que procurava. “Filmei a viagem e, quando voltamos, editei as imagens e mostrei para o Tião. Ele ficou muito emocionado com o que viu! Foi um momento intenso para a família e quando vi surgir a oportunidade de fazer um filme”, lembra-se. O documentário tinha que ser em torno das histórias que ele contava sobre as experiências e aprendizados durante suas expedições. Mas, como fazer isso, se ainda havia uma barreira entre pai e filho?

“Contactei o Wim Wenders (cineasta alemão e codiretor de ‘Sal da Terra’) e me abri para ele. Em 2011, já tínhamos um arco dramático para filmar essa história. Ele entrou para ajudar a comunicação com Sebastião e fazer com que ele compartilhasse suas experiências”, explica o diretor. A sacada de Wenders não foi entrevistar o fotógrafo, mas fazer com que ele falasse naturalmente. “O Wim o colocou em um estúdio, com uma cortina preta que isolava o resto da equipe. Nesse momento, tínhamos uma câmera que ele não podia enxergar. Só o que via era um espelho que refletia suas fotografias, enquanto lembrava a história de cada uma”, descreve o codiretor do longa.

Mas, até chegar a um acordo, a parceria entre os cineastas foi sofrida. “Começamos a ter problemas. Foi difícil abrir mão das sequências e deixar que outro as editasse. Quando o Wim viu a minha edição, ficou louco de raiva, gritava na sala de edição. Também não gostei da parte dele. Resistimos muito. Demorou, mas, depois de um ano, chegarmos a um consenso”, conta Juliano.

O resultado final foi mostrar quem esteve por trás das lentes que registraram acontecimentos mundiais das últimas quatro décadas. O trabalho de Sebastião rendeu livros de cunho social, como ‘Outras Américas’ (1986), ‘Trabalhadores’ (1996), ‘Êxodos’ (2000) e ‘África’ (2007). Até que ele caiu em depressão após presenciar tanta crueldade humana. Daí em diante, decidiu dar uma guinada e, por nove anos, saiu em busca de lugares e povos intocados pela civilização — o que resultou em ‘Gênesis’ (2013).

“Quando eu vi aquilo pelo olhar de outra pessoa (Wenders), consegui entender o que o Sebastião viveu enquanto estava fora. Foi aí que consegui aceitar tudo isso”, diz Juliano, que emenda: “Para fazer o filme, tinha medo de não ser capaz de passar a montanha de coisas que me impediam de conviver com o meu pai, que tudo fosse um fracasso. Amadureci muito nesse processo e hoje posso dizer que sou um adulto”, desabafa o cineasta, com 40 anos.

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