Thammy Miranda: 'Odiava ser mulher e o que trazia a feminilidade'

Filho de Gretchen diz estar passando pelo melhor momento da sua vida e fala sobre época em que dançava com a mãe

Por O Dia

Rio - Thammy Miranda não esconde a empolgação com a fase que classifica como a melhor da sua vida. Depois de contar sua história para a escritora Marcia Zanelatto, autora do livro “Thammy — Nadando Contra A Corrente” (Editora Best Seller), o filho transgênero de Gretchen, a eterna Rainha do Bumbum, parece ter se livrado de um peso nas costas. E foi com muita leveza e tiradas engraçadas que ele conversou com o MEIA HORA. Sem censuras.

Falamos desde como o processo de transexualização pode impactar ou não no seu trabalho como ator até sobre um provável início na vida política, pelo mesmo partido do polêmico e conservador deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ).

Thammy Miranda em foto para seu novo livroReprodução Instragram

E aproveitamos para satisfazer uma curiosidade de alguns dos nossos leitores: será que Thammy usa o banheiro masculino ou ainda frequenta o feminino? “Bom, tô indo no masculino, mas se o feminino estiver mais vazio, vou lá mesmo (risos)”, responde ele.

Você imaginava que sua foto sem camisa fosse ter tanta repercussão? Chegou-se a especular que você teria cobrado R$ 10 mil para mostrar o tórax depois da cirurgia de retirada dos seios. É verdade?

Só 10? Tá muito barato. Sabia que ia dar repercussão, mas nunca pensei que fosse chamar mais atenção que uns belos peitos (risos).

A sua biografia fala bastante da sua relação com a Gretchen. Quando você assumiu a homossexualidade, rolou a não aceitação dela, que te pediu para antes experimentar como era transar com um homem. Como foi não ter o apoio da sua mãe?


Torna o momento muito mais difícil do que deveria ser. Você não ter o apoio de quem você mais ama dói, mas fez parte do meu amadurecimento e só entendo isso hoje. Por isso quis fazer o livro, para que os pais possam entender logo o que acontece e os filhos não terem que passar pelo que eu passei.

Sua mãe sempre foi sua parceira. Quando mais jovem você topou fazer ensaio sensual e dançar para ficar mais perto dela. Arrepende-se dessa fase?

Me arrependo, mas não por ter escolhido isso pra ficar perto dela. Me arrependo de ter escolhido isso. Faria tudo de novo pra ficar perto dela, mas acho que pediria para ser da produção, porque não teria que dançar e vestir aquelas roupas.

O que era pior: saia, vestido, maquiagem ou salto?

O conjunto, tudo. Odiava ser mulher e tudo que trazia a feminilidade. Eu amo a mulher, não ser.

Hoje, como homem, pegaria ou desejaria a Thammy que você era?

Não, porque era chata e infeliz.

Nem só para pegar por uma noite?

Não sou de pegar por uma noite, gosto de namorar.

Você se arrepende de ter seguido carreira artística por ter sido mais difícil se assumir sendo uma pessoa pública?

Não me arrependo de ter seguido a carreira artística, a única coisa que faria diferente é lá atrás, quando eu resolvi dançar com a minha mãe pra ficar perto dela, e se não fosse essa questão de querer estar perto, acho que eu poderia ter tomado um outro rumo, estudado para uma outra profissão. Não teria seguido a carreira artística. Mas como diz meu pai: ‘Acontece o que tem que acontecer’.

As pessoas falam mais atualmente sobre a questão do transexual. Acha que se você se assumisse hoje seria mais fácil?

Ia ser mais fácil. Talvez eu teria descoberto o que era transexualidade muito antes, mas é o tempo que tem que ser, e hoje, graças a Deus, a gente tem essa voz. A gente pode ter meu livro pra explicar muita coisa para tantas pessoas, pode ter outros transexuais na televisão, fazendo palestras e falando sobre isso para que outras pessoas entendam. Então, acho que o tempo certo não existe, é o tempo de Deus.

Você já está sendo chamado pelas pessoas no gênero masculino. Elas perguntam como te tratar?

Me perguntam toda vez. Já falei que podem me tratar do jeito que quiserem. Daqui a pouco vai ser automático e as pessoas já vão estar acostumadas, jamais vou impor alguma coisa.

Quando você teve que ficar sensual na pele da sua personagem de ‘Salve Jorge’ (2012), você já tinha declarado ser homossexual, mas ainda não havia dado início ao processo de transexualização. Caso recebesse uma convite agora para interpretar uma mulher fatal, você toparia?

Com certeza, faria. É um personagem. Faria qualquer personagem, não só feminino. Se tivesse que ser uma árvore, eu faria.

Ainda em relação à personagem de ‘Salve Jorge’, de alguma forma o fato de ter que se ‘montar’ toda sensual foi a gota d’ água pra você optar pela transexualização?

Já era um processo. Não tem assim a gota d’água pra você escolher isso, você é. Não tem como: ‘Ah, eu cansei de ser sapatão e vou ser transexual’. Não existe essa possibilidade. Você só é uma coisa que você não reconhece, porque a transexualidade não era muito falada. Eu sabia o que queria, mas não sabia que tinha um nome pra isso e fui descobrindo com o tempo.

A Roberta Close revelou numa entrevista que um ator se recusou a beijá-la por vê-la como homem. Você ficaria chateado se uma atriz fizesse isso em relação a você? Acha que isso ainda rola?

Olha, não sei se rola, mas, cara, acho que ficaria chateado, sim.

Já pensou em ter um papel de galã em novela?

Eu ia curtir muito e faria com o maior prazer.

Ficou com medo de não conseguir mais papéis na TV depois da cirurgia da retirada dos seios?

Não, muito pelo contrário. Acho que quando você se posiciona, as pessoas conseguem te enxergar de uma outra forma. Antes, eu tinha uma imagem meio andrógina, né? E hoje não. Hoje, me posicionei, acho que fica mais fácil.

Você fez 33 anos na última quinta-feira. Sente-se realizado? É o melhor momento da sua vida?

Com certeza, é muito bom você ser quem você é. É bom você não ter que viver um personagem na vida real. É muito bom você poder vestir a roupa que você gosta, do jeito que você gosta, estar com o corpo que gosta, se olhar no espelho e se gostar. Você se sente muito feliz.

No livro, você fala que os homens não têm bom papo, por isso que você pega mais mulheres... É isso mesmo?

Não é (risos). É que é da cultura machista, né? O homem parece que é criado para se resolver no órgão genital. O pau dele é tudo na vida dele. Para a mulher não é assim.

Após a retirada dos seios, as pessoas perguntam muito se você vai tirar útero e ovários também. Pensa nessa cirurgia?

A questão do ovário e do útero seria só por uma questão de saúde mesmo, porque dependendo de quanto tempo você já está tomando hormônio pode dar algum problema e você pode ter que tirar. Não que isso seja uma regra, pode ser que tenha que tirar. Tem gente que já opta por tirar logo e pronto e acabou porque você para de produzir hormônio feminino. Por enquanto, não penso, mas, se caso precisar por uma questão de saúde, tiraria.

Rolou algum tipo de censura em relação ao conteúdo do livro ou foi tudo liberado pela editora?

Foi uma questão de censura minha e da Marcia, a gente não quis muito falar da questão das mulheres que passaram pela minha vida. Teria que entrar na vida delas pra contar nossa história. Então, a gente pulou essa parte e foi bem superficial em relação às mulheres (risos).

Como está o namoro com a Andressa. Estão morando juntas?

A gente mora cada um na sua casa, mas a gente dorme todo dia junto. Temos duas casas.

Você falou que tem vontade de ser pai. O seu pai te influenciou na questão de querer ser um paizão?

Sempre tive essa vontade. Não que meu pai tenha me influenciado, mas, se um dia eu tiver um filho, quero ser igual a ele. Acho que só não vou mimar tanto quanto ele me mimou.

Você se filiou ao Partido Progressista (PP)?

Ainda não. Falta eu mandar o meu título de eleitor para eles.

Vai se candidatar a vereador na eleição de 2016?

Não posso sair como vereador no ano que vem. Vou ter um contrato ano que vem que me impede. Não posso estar na televisão e ser candidato.

Li que você seria candidato a vereador. Queria saber o que você acha de ser do mesmo partido do deputado federal Jair Bolsonaro, famoso por criticar abertamente os gays.

Não, o que aconteceu é que me chamaram pra uma reunião porque queriam me filiar, e aí a gente começou a conversar sobre um núcleo de diversidade. Eles falaram que gostariam de ter um núcleo de diversidade dentro do PP e que queriam que eu presidisse esse núcleo. E aí eu falei pra eles que a gente pode parar, pensar e conversar, que não é assim em uma reunião que a gente vai definir isso, claro, mas eu achei uma vitória pra nós, homossexuais e transexuais, ter um núcleo de diversidade dentro de um partido tão conservador, dentro de um partido que tem militar, dentro um partido que tenha uma fama de homofóbico. Acho que seria uma grande vitória, mas tudo isso muito mais pra frente, pra conversar e ver o que a gente pode fazer. O que a gente pode incluir de diversidade dentro do partido, o que o partido está a fim de fazer pra apoiar a diversidade.

*Entrevista de Isabelle Rosa 

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