João Pimentel: Um talvez definitivo

Aquele cabelo preto total radiante era fruto de muita tintura

Por O Dia

Aquele cabelo preto total radiante era fruto de muita tinturaArte O Dia

Rio - Ela acordou, encarou o espelho e lá estava sua nova companheira para todo o sempre. Pequenina, saliente, quase imperceptível. Para os outros. Para ela, a princípio, era o começo do fim. A marca indelével do tempo, uma cicatriz da existência, um rasgo no seu sonho eterno de princesa, apesar de já não ser há tempos uma menina. Isso durou uma sessão de análise, uma breve reflexão e, depois, virou piada e consciência. A primeira ruga era, sim, sinal de vida, de estrada, de aventuras e percalços. “Que outras venham, desde que bem aos poucos. E apesar de fundamentais, vão se ver com minha dermatologista”, decidiu.

Já ele resolveu que era hora de dividir um segredo com os melhores amigos. Aquele ar jovial, aquele topete que nunca desmanchava, aquele cabelo preto total radiante era fruto de muita tintura, escova e outras cabeleirices mais. Um amigo ligou para falar do Flamengo, saber se ele podia comprar uns ingressos, em cima da hora, para o jogo. Ele não titubeou:

“Cara, não dá, tô todo lambuzado de tintura.”

“Como?”, perguntou o amigo.

“Isso mesmo, tô aqui com a cabeça empastelada de tinta.”

Os dois personagens fazem parte de uma mesma história, a minha, e de forma curiosa me fizeram pensar na minha própria existência na semana que fico um pouco mais pra lá do que pra cá. Tenho o péssimo hábito de achar que não estou envelhecendo, abusando dos limites do corpo, perdendo meu tempo com bobagens, ignorando rugas e pintando os cabelos brancos da sabedoria. Mas vejo também que sempre fui assim.

Não sou ligado em signos, astros, deuses, mas gosto de saber sobre tudo, inclusive sobre o que nunca vou entender. Assim, ouvi muito cedo que o libriano tem um senso estético aguçado, que prima pela justiça e que, desgraça minha, tem um péssimo poder de decisão. Uma das minhas lembranças de infância é um diálogo com a minha mãe, que queria me dar uma camisa nova.

“Pode escolher a que você quiser, meu filho.”

“Qualquer uma?”

“Sim, qualquer uma.”

“Mas qual que você escolheria, mãezinha?”

“É para você, você tem que saber escolher.”

“Mas se você fosse eu, qual escolheria?”

Assim eu fui e vou levando a vida há 46 anos. Sofrendo a cada decisão, angustiado diante das escolhas, torcendo para que alguém diga: “Escolhe essa camisa que ela é mais bonita”. Mas sei que a vida não é assim, e eu preciso virar adulto antes do dia 27 de setembro. Se bem que Cosme e Damião são protetores das crianças...

Acho que, por isso, vou sobrevivendo a mim mesmo. Diante de qualquer dúvida, lembro sempre do meu Marcinho, que a qualquer questionamento responde: “Não posso te dar um talvez definitivo. Detesto indecisão. Ou não”.

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