A nova praia de Joel Santana

De volta à ativa como treinador e irreverente como sempre, o Natalino fala do Boavista no Carioca, da carreira e da vida. Sem perder o bom humor

Por O Dia

Rio - Para a alegria do futebol, a prancheta mais famosa do Brasil está de volta. Depois de dois anos longe da bola, Papai Joel voltou à ativa. Ao aceitar o desafio de comandar o Boavista, o técnico de 68 anos tenta se reinventar em um universo que conhece como poucos. Já são mais de 50 anos de uma carreira vencedora como jogador e técnico. Coroada com títulos na Mercosul, Brasileiro e nos Estaduais. Só na Cidade Maravilhosa são sete Cariocas e um título merecido, o de ‘Rei do Rio’ por conquistar taças pelos quatro grandes. Após se arriscar na TV em memoráveis comerciais marcados pela irreverência e humor, Joel quer provar que sua praia sempre foi o futebol. Nesta entrevista, ele fala sobre tudo. De James Bond a Mourinho, passando pela aposentadoria e as recentes críticas dos desafetos que o consideram ultrapassado. Tudo com uma autenticidade cativante, que faz dele um dos últimos românticos do futebol.

Técnico foi campeão do Carioca por Flamengo%2C Vasco%2C Fluminense e BotafogoDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

ATAQUE: O que achou da pré-temporada no C T do vôlei, em Saquarema?

Joel Santana: Tem coisa mais linda que isso? De um lado o mar, do outro a lagoa cheia de peixes. Só não mergulho no mar porque é aberto e perigoso. De resto não tem coisa melhor. Ninguém perturba. Estou mais do que em casa. Aqui vejo passarinho o tempo todo. Tem Quero-Quero, tem peixe pulando na lagoa. Estou no hotel das estrelas. Em termos de pré-temporada não podia ser melhor. É um lugar maravilhoso, acostumado a ser campeão. Não falta nada. É trabalhar e ajeitar a equipe, porque vamos pegar logo de cara o Golias (Flamengo) na estreia do Carioca. Mas, devagarzinho, o Davi está se preparando para encarar o Golias.

ATAQUE: O Boavista vai dar muito trabalho no Carioca?

Joel Santana: Estamos armando a equipe em um mês. É diferente de um time montado, que já vem jogando junto. Tivemos muito cuidado nas contratações. Agora vem a fase mais difícil. É preciso encaixar os setores e a equipe. São 34 pessoas diferentes, com problemas diferentes. Convivemos bem. Uns cinco eu conhecia. Ajuda, pois eles orientam quem não trabalhou comigo. Eles falam: “Olha, hoje ele é um coelho, mas se você cutucar vira um leão na hora (risos)”. E com juba, pois não conheço leão sem juba. Não viemos para ser coadjuvantes no Carioca. Vamos ver se a gente consegue chegar para disputar um dos dois turnos. É futebol, né?

ATAQUE: Qual é a sua expectativa para o Carioca?

Joel Santana: As equipes, mesmo com menos poder aquisitivo, fizeram um investimento muito forte. O Madureira vem bem, o Volta Redonda motivado com a conquista da Série D do Brasileiro. O Macaé sempre vai bem na casa dele. Quem está saindo na pole position é o Flamengo, pois não mexeu nada e está contratando. O Vasco e o Flu já mexeram no time, assim como o Botafogo. O campeonato vai ser muito bacana e romântico.

ATAQUE: O que fez no período que ficou sem trabalhar?

Joel Santana: Ia muito à praia, ao cinema, dei algumas palestras e vi tudo que podia de futebol.

Joel Santana comanda o Boavista no CariocaDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

ATAQUE: Você fez alguns comerciais de muito sucesso, que muita gente achou caricato. Como encarou as críticas?

Joel Santana: Apareceram outros ramos e investi. Juntei as duas coisas e muita gente entendeu mal. Sabe porquê? Porque é muito mais fácil criticar do que reconhecer o valor do outro. E o pior não é isso. As minhas propagandas venderam. E venderam muito bem. Eu nunca tinha feito aquilo na minha vida. Se você procurar no Google nos últimos dez anos, uma das propagandas (a de shampoo) foi a mais vista. Porque eles iam gravar comigo, se gravaram com Messi, com Federer e com o nadador americano (Phelps)? A do Federer deu sete milhões e a minha primeira propaganda deu 21 milhões. Por quê?Não era uma propaganda da mesmice. Eu gravei com o Pelé, cara!. Quem é que consegue gravar com o ‘Homem’?

ATAQUE: Você ficou magoado com as críticas?

Joel Santana: Consegui popularidade sendo sempre espontâneo. Não puxei o saco de ninguém, não consegui pagando para A, B ou C. Consegui porque o povo me aceita do jeito que eu sou. O meu compromisso não é com os críticos, é com o povo. Se o povo me aceita do jeito que eu sou, não vejo motivo para mudar a minha vida. Não fico rebuscando palavras para dizer aquilo que sinto, o que quero. Eu vou ficar magoado porque alguém fez uma critica dizendo que o Joel fala um inglês que não é certo? Faz sucesso? O problema é o sucesso. <MC5>Não fiquei magoado com nada. Só fico chateado quando um senhor repórter chega na TV e diz que estou velho e ultrapassado. O técnico do Arsenal tem 22 anos no clube e ninguém chama ele de velho e de ultrapassado. E olha que o Arsenal não ganha praticamente nada.

ATAQUE: Já pensa no que vai fazer quando parar?

Joel Santana: Já tive propostas e mais propostas de comentar jogos e fazer programas, mas quis enfatizar mais a carreira de técnico. Sei que estou mais para barro do que para tijolo. Mais para parar do que para dar sequência. E aí, talvez, fazer o que gosto, comentar futebol. Acho que tenho condições. Sou um ex-jogador, sou formado na situação, sou técnico. Vejo muita gente falando de futebol. Alguns falam certo, outros por filosofar, por mexer na internet. Eles procuram números e palavras rebuscadas. Você fala alguma coisa, a palavra pega e todo mundo fala a mesma coisa. Tem gente comentando futebol com três minutos de jogo. O que você vê em cinco minutos? Essa pessoa jogou aonde?

ATAQUE: O que achou do desabafo do Renato Gaúcho, que criticou técnicos que fazem estágios fora do Brasil?

Joel Santana:Nem tanto ao sol nem tanto ao mar. Muitos acham que você passa um mês na Europa e já sabe tudo. Eu te pergunto: você acha que um Mourinho da vida vai pegar um treinador brasileiro e ensinar para ele em um mês todas as táticas? Claro que não. E o pulo do gato, você vai dar onde?

ATAQUE: Faltou alguma coisa na sua carreira?

Joel Santana: Gostaria de ter trabalhado na Seleção. Fiz por merecer. Não precisava ser treinador, não. Podia ser um auxiliar, olheiro, ou coisa parecida. Eu vesti cores iguais (a da seleção da África do Sul, onde foi técnico), mas não era a seleção do meu país. Pela minha passagem no futebol, gostaria de carregar a bandeira do país comigo.

ATAQUE: Vai escrever um livro sobre a sua carreira?

Joel Santana: Já pensei. Acho que cada clube vai dar um livro. Vai ter número 1, 2, 3, 4. Todo filme bom não tem continuação? Não teve a sequência do Stallone, do Indiana Jones? E Missão impossível? E 007? Sou fã deles. O James Bond eu vi todos. O Sean Connery foi o melhor de todos, grandão, conquistador. Até hoje mantém aquela elegância. Não é um Joel Santana, mas ... (risos)

ATAQUE: O Joel faz muito sucesso com as mulheres?

Joel Santana: Não, para com isso! (risos)

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