Dólar testa piso de R$ 2,20

A moeda fechou ontem cotada a R$ 2,2144, em desvalorização de 0,17% comparativamente à véspera e de 1,44% em relação ao preço de segunda

Por O Dia

O dólar ameaçou ontem escavar o piso de R$ 2,20. Na mínima do dia, foi vendido a R$ 2,2004. Neste ano, já rompeu o suporte. Foi no dia 9 de abril, quando fechou cotado a R$ 2,1975. O ingresso líquido de capitais é tão expressivo que de nada adiantou o Banco Central ter acenado com a possibilidade de não rolar US$ 4,65 bilhões dos US$ 9,65 bilhões em swaps cambiais que vão vencer no dia 2. O BC sugeriu essa intenção, provocou na segunda-feira uma disparada de 1,24%, com o dólar indo para perto de R$ 2,25, e depois o câmbio retomou seu viés primário de apreciação como se nada tivesse acontecido. A moeda fechou ontem cotada a R$ 2,2144, em desvalorização de 0,17% comparativamente à véspera e de 1,44% em relação ao preço de segunda. Tudo que subiu no início da semana devolveu nos três dias seguintes.

O mercado só desistiu, no meio da tarde, de testar o piso de R$ 2,20 porque ficaram muito insistentes os boatos de que, ao contrário da pesquisa Sensus, a que está sendo elaborada pelo Datafolha não irá mostrar um avanço significativo da candidatura de Aécio Neves, nem a certeza de necessidade de realização de um segundo turno.

Prova de que o BC estava certo foi fornecida pelo único grupo de investidores hoje postados na ponta de compra — que ganha se o dólar sobe — nos pregões de derivativos cambiais da BM&F. Apesar de o BC indicar que não estava propenso a renovar 48,2% dos swaps com data de resgate em 2 de junho, os investidores estrangeiros reduziram suas posições compradas em cupom cambial e dólar futuro do recorde de US$ 28,69 bilhões estabelecido na sexta-feira passada para US$ 26,89 bilhões nesta quarta-feira. Os hedge funds globais concluíram que se o BC estava negando um expressivo volume de hedge, para justamente tentar evitar que o dólar viesse abaixo de R$ 2,20, era porque vislumbrava a persistência do fluxo cambial positivo. E o BC é o player que detém antecipadamente informações privilegiadas sobre a performance da balança cambial, compartilhadas semanalmente com o resto do mercado com uma defasagem de três dias. E resolveram não peitar a autoridade.

Mas ao diminuir suas posições compradas em derivativos em US$ 1,8 bilhão, o capital externo, mesmo concordando com a direção sinalizada pelo BC, age para sabotar o seu objetivo de manter intacto o piso de R$ 2,20. E age assim sem outra alternativa, já que, “comprado” em dólar, não tem como tirar vantagem da baixa da moeda mesmo depois de o BC ter reduzido a intensidade de suas intervenções cambiais.

O BC está, na verdade, promovendo testes para tornar mais natural, e desprovida de pretextos a movimentos especulativos, a decisão que terá de tomar no mês que vem, sobre a continuidade ou não do seu programa de amplo fornecimento de hedge cambial a quem precisa. Instituído em 23 de agosto para enfrentar uma disparada do dólar decorrente do temor (infundado) de que o “tapering” americano iria provocar uma explosão dos juros longos dos EUA (aconteceu o contrário), o programa ganhou uma reformatação, mais atenuada, em dezembro. O BC parou de oferecer linhas de crédito em dólar com compromisso de recompra e reduziu a oferta de swaps novos a US$ 1 bilhão por semana.

Essa nova versão do programa termina no dia 30 de junho. Não por acaso, o volume sonegado de hedge este mês quase equivale à quantidade que colocará em swaps novos. E o dólar cai. Ou seja, por enquanto o teste está indicando que ele pode deixar de oferecer swaps novos desde que preserve a rolagem integral dos velhos. Preservará, com isso, o estoque desses contratos perto dos US$ 88 bilhões, guardando munições para quando o Federal Reserve (Fed) iniciar, lá no segundo semestre de 2015, a alta da taxa básica de juros. No mês que vem, antes de decidir cancelar o programa ou suavizá-lo mais ainda, fará mais um teste. É que no começo de julho irá vencer um megalote superior a US$ 10 bilhões em swaps velhos.

Mas o BC sabe que, mesmo pondo um fim legal ao programa, terá de sustentar aberta uma ampla porta para o seu retorno ao mercado em caso de necessidade. Maio vem sendo um mês de baixíssima aversão global a risco. Os grandes investidores globais persistem vendendo dólar e comprando moedas e títulos de países emergentes. Por enquanto, tudo indica que junho não será diferente. Após sua reunião de política monetária de ontem, o Banco Central Europeu (BCE) reforçou a possibilidade de, no mês que vem, instituir um programa de recompra de títulos públicos por meio do qual pode injetar até 1 trilhão de euros para evitar a deflação na zona do euro. E uma parte desse dinheiro acabará nos mercados emergentes.

No xadrez jogado pelo grande capital global, a Europa é uma peça de menor valor. O olhar está mais atento para o que acontece nos EUA e na China, as duas maiores economias. A primeira permanece sentada esperando pacientemente que algum dia haja uma robustez econômica capaz de dispensar os estímulos em dinheiro (hoje de US$ 45 bilhões ao mês) e sob a forma de um juro de curto prazo negativo. A segunda alterna resultados ruins e bons. Ontem foi dia de um indicador positivo. A balança comercial chinesa de abril superou o mal-estar de março. As exportações cresceram 0,9%, quando os especialistas projetavam queda de 3% após retração de 6,6% no mês anterior. E as importações aumentaram 0,8%, depois de recuo de 2,1%. As inquietações sobre o risco de um mergulho chinês foram apaziguadas.

Em eventos distintos, diretores do BC proferiram declarações interpretadas pelo mercado futuro de juros da BM&F como indicativas de que o Copom ainda não fechou questão sobre o encerramento do ciclo de alta da Selic. Luiz Awazu Pereira da Silva, da área internacional, lembrou que, consoante com sua missão de estabilização monetária, o BC continuará “o trabalho iniciado em abril de 2013”. Carlos Hamilton Araújo, de política econômica, embora veja moderação nos mercados de trabalho e crédito, repisou a vigilância da autoridade. Foram meros pretextos para os compradores de títulos públicos prefixados colocados em leilão pelo Tesouro puxarem as taxas. O contrato negociado para a virada do ano na BM&F subiu de 10,98% para 11,02%.

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