Dólar cai 3,65% em cinco dias

Realisticamente, o Federal Reserve (Fed) não deverá encontrar motivos para fazer este ano nem uma alta de 0,15 ponto. A economia dos Estados Unido está em desaceleração

Por O Dia

O mercado americano de títulos do Tesouro não desiste do seu otimismo apesar de se acumularem provas de que a economia dos EUA perde viço de forma assustadora. Na sexta-feira, com a maior parte dos mercados emergentes em recesso por causa do feriado, o relatório oficial do mercado de trabalho de março derrubou os juros dos papéis. A taxa da T-Note de 10 anos cedeu de 1,89% para 1,84%. Mas ontem bastou uma divergência dentre os índices relativos ao setor de serviços para o título voltar a operar acima de 1,90%. A indecisão colocou o dólar numa gangorra: chegou, de manhã, a cair 1,48%, cotado a R$ 3,0829, para precificar o atraso em relação ao movimento de sexta-feira, mas fechou com desvalorização bem menos acentuada, de 0,22%, a R$ 3,1223. Foi a quinta baixa consecutiva, acumulando desde o dia 30 perda de 3,65%.

Os operadores americanos não querem abandonar sua crença de que o Federal Reserve (Fed) irá descongelar a taxa básica de juros em sua reunião de junho. Trata-se de fato disso mesmo: uma crença. O “payroll” mostrou que do mercado de trabalho não virão pressões inflacionárias capazes de suscitar uma resposta monetária do Fed. A decepção dos altistas em juros foi tremenda. Ao contrário da expectativa dos analistas de geração de 245 mil novos empregos no mês passado, a economia conseguiu abrir apenas 129 mil vagas. A diferença entre o real e o imaginado foi abissal. Novo desapontamento veio com a revisão para baixo do dado relativo a fevereiro. O Bureau of Labor Statistics (BLS) reprocessou as informações, agregando as mais recentes, e concluiu que ao invés da geração anteriormente anunciada, de 288 mil empregos, houve a criação de apenas 264 mil em fevereiro. A taxa de desemprego permaneceu em 5,5%.

Trata-se de um “payroll” suficientemente ruim para, na hipótese menos interesseira, empurrar para setembro o início de um movimento de alta da “fed funds rate”. Realisticamente, o Fed não deverá encontrar motivos para fazer este ano nem uma alta de 0,15 ponto. A economia está em desaceleração — a expansão do PIB recuou de 5% no terceiro trimestre para 2,2% no quarto de 2014 —, o núcleo dos índices de inflação no varejo estabilizaram-se em 1,3% ao ano, o dólar se fortaleceu retirando competitividade da indústria e inundando o comércio de importados. Mesmo assim os altistas viram um sinal de esperança nos índices divulgados ontem referentes ao setor de serviços. E nem caminharam na mesma direção. Enquanto o ISM apontou uma queda de 56,9 em fevereiro para 56,5 em março, o PMI avançou de 57,1 para 59,2. O mercado se agarrou desesperadamente no segundo para puxar as “treasuries” para cima.

Os contratos de juros futuros negociados na BM&F se limitaram ontem a se deslocar para cima e para baixo em sintonia com a volatilidade do dólar. Não há novidades no front inflacionário para justificar uma conduta autônoma. A taxa para janeiro de 2017 recuou de 13,23% para 13,18%. E o contrato para janeiro de 2021 cedeu de 12,78% para 12,74%. Depois de subir ininterruptamente por 14 semanas, a projeção de IPCA das cem instituições pesquisadas pelo Banco Central para a elaboração do seu boletim semanal Focus parece ter encontrado o seu teto. A estimativa avançou de 8,13% para 8,20% na edição publicada ontem.

A dificuldade dos economistas em ampliar o seu pessimismo tornou-se patente nas duas outras expectativas de IPCA coligidas na pesquisa. O indicador esperado para os próximos 12 meses recuou pela terceira semana em sequência. Estava em 6,53% há quatro semanas, baixou para 6,30% na semana retrasada e desceu agora a 6,11%. Trata-se daquele efeito estatístico ao qual os documentos oficiais do BC se apoiam para prever um longo e contínuo declínio da taxa de inflação já a partir deste mês de abril: na série utilizada para o cálculo da inflação de 12 meses, sai um índice elevado e entra outro mais baixo.

Também para o caso do prognóstico para o IPCA do ano que vem, não há dramaticidade: o Focus manteve a sua projeção nos mesmos 5,60% da semana anterior. A inflação irá perdendo fôlego mês a mês por causa da débil atividade econômica, do crédito caro e escasso, da correção já realizada e precificada das tarifas públicas e da atenuação das pressões cambiais, decorrente da postergação do aperto monetário americano. Mais que isso, o mercado sente que o compromisso petista com a austeridade fiscal não é de curto prazo, não é uma estratégia passageira destinada unicamente a impedir o rebaixamento do rating soberano. Não resta outra alternativa ao PT se quiser evitar a derrota em 2018.

A via dolorosa proposta por Joaquim Levy é vista como a única possível, tanto que os economistas mais à esquerda não criticam mais a adoção da ortodoxia, mas a forma como vem sendo executada, considerada apenas um “ajuste de caixa” indiscriminado e sem critério. É o único caminho porque as políticas monetária e cambial estão esgotadas. O BC já terá passado o limite da decência quando, no próximo dia 29, subir a Selic de 12,75% para 13,25%. Este é o teto da Selic. Tanto é que, embora os analistas tenham ajustado para cima suas estimativas para o IPCA do ano, a projeção de taxa básica de encerramento de 2015 permaneceu em 13,25%. A política de intervenção cambial também se exauriu. Dado o enorme impacto fiscal acarretado pelos swaps cambiais, a ação se limitará a revalidar o que já foi feito. Se o dólar continuar caindo, nem isso.

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