Juro futuro afronta BC e cai

O BC está se esforçando para promover uma brutal recessão econômica e o mercado acredita que só em 2018 será possível baixar o IPCA para 4,5%. Está tudo completamente fora do lugar

Por O Dia

Já preparados para absorver os choques decorrentes de eventos tidos como inevitáveis — o default da Grécia e o desligamento do país da eurolândia — os mercados globais foram surpreendidos pelas novas propostas de reformas do Syriza e a acolhida que mereceram das autoridades europeias. Com as tensões um pouco mais relaxadas, os investidores iniciaram, bem devagar, a volta para a casa. O desmonte de operações defensivas implica, antes de tudo, na venda de títulos do Tesouro americano. A saída desse bunker provocou a disparada do rendimento da T-Note de 10 anos, de 2,26% para 2,38%. Ativos de emergentes voltaram a ser procurados. Em relação ao real, o dólar caiu 0,66%, para R$ 3,0816. E o pregão de juros futuros da BM&F sentiu-se encorajado a reduzir as taxas e afrontar a ofensiva ortodoxa do Banco Central.

Os contratos caíram em bloco na BM&F, apesar de o alvo inflacionário mirado pelo BC ainda estar distante. A taxa para a virada do ano cedeu de 14,23% para 14,19%. O contrato para janeiro de 2017 fechou a 13,92%, de 14,04% na sexta-feira. E o contrato de longo prazo mais afeito ao risco internacional, com liquidação em janeiro de 2021, recuou de 12,75% para 12,64%. Essas quedas não afrouxam, porém, o cabo de guerra travado entre o BC e o mercado.

A perplexidade dos economistas de instituições financeiras com os saltos desconcertantes da inflação corrente — aquela que não faz a cabeça de quem comanda a política monetária, cujo único foco de atenção desloca-se para as “expectativas”, a inflação futura — pode ser medida pela velocidade raramente vista das revisões para cima do IPCA projetado para este ano. As estimativas das cem instituições que participam da pesquisa Focus do BC descrevem pulos acrobáticos. O prognóstico subiu na semana passada, na décima alta em sequência, 0,18 ponto, de 8,79% para 8,97%, sendo que, no período anterior, já havia saltado 0,42 ponto, de 8,37% para 8,79%. Os contratos caíram em bloco na BM&F, apesar de o alvo inflacionário mirado pelo BC ainda estar distante. A taxa para a virada do ano cedeu de 14,23% para 14,19%. O contrato para janeiro de 2017 fechou a 13,92%, de 14,04% na sexta-feira. E o contrato de longo prazo mais afeito ao risco internacional, com liquidação em janeiro de 2021, recuou de 12,75% para 12,64%. Essas quedas não afrouxam, porém, o cabo de guerra travado entre o BC e o mercado.

A perplexidade dos economistas de instituições financeiras com os saltos desconcertantes da inflação corrente — aquela que não faz a cabeça de quem comanda a política monetária, cujo único foco de atenção desloca-se para as “expectativas”, a inflação futura — pode ser medida pela velocidade raramente vista das revisões para cima do IPCA projetado para este ano. As estimativas das cem instituições que participam da pesquisa Focus do BC descrevem pulos acrobáticos. O prognóstico subiu na semana passada, na décima alta em sequência, 0,18 ponto, de 8,79% para 8,97%, sendo que, no período anterior, já havia saltado 0,42 ponto, de 8,37% para 8,79%.

Se, em apenas duas semanas, a expectativa avançou 0,60 ponto é porque há algo de muito errado nos modelos econométricos de predição do IPCA. E se eles erram em relação ao que seria mais fácil de acertar — justamente a inflação que está ocorrendo agora — por que não estariam sujeitos a equívocos maiores ainda acerca da inflação que irá acontecer no ano que vem? O pior de tudo é que a política monetária está sendo levada ao cúmulo do mais nefasto monetarismo com o objetivo confesso e precípuo de fazer com que as projeções do mercado para 2016 se alinhem à ideia fixa do BC de se obter taxa de inflação no centro de 4,5% da meta. Está-se se dando demasiada importância à ancoragem das expectativas, em obediência à inferência técnica de que as “expectativas” são responsáveis por um terço da inflação futura. Qual a influência da recessão sobre os preços? Trata-se de um fator hoje profundamente subestimado.

Enquanto a economia agoniza, BC e mercado sustentam sua guerrinha de expectativas. Depois de toda a alta já feita na taxa Selic, somente no Focus divulgado ontem constatou-se que os economistas de instituições finalmente equipararam sua previsão de IPCA à perseguida pelo BC, mas somente para o ano de 2018. Isso mesmo: a projeção de inflação para 2018 recuou de 4,6% para 4,5%, taxa que antes só era prevista para 2019. Para 2017, o consenso do Focus reduziu a aposta de 4,80% para 4,75%. E para o ano que vem, o alvo exclusivo do Copom? A expectativa manteve-se em 5,5% pela quinta semana consecutiva. Ou seja, o BC está se esforçando para promover uma brutal recessão econômica e o mercado acredita que só em 2018, ano eleitoral de gastos públicos naturalmente inchados, será possível baixar o IPCA para 4,5%. Está tudo completamente fora do lugar.

O que o Focus está dizendo ao BC é simples: pare de subir a Selic porque você não vai conseguir derrubar o IPCA para 4,5% no ano que vem. O BC acredita que o mercado está errado nessa aposta, mas, ao invés de agir coerentemente com a sua certeza íntima, eleva ainda mais a Selic, movimento que acaba dando razão ao ceticismo do mercado. Depois da ata severa do último Copom, o Focus ajustou para cima sua estimativa de Selic para o fim do ano, mas só concordou em aumentá-la de 14% para 14,25%. Para o mercado, a elevação de 0,50 ponto que o Copom fará no mês que vem será a última do longo ciclo de aperto monetário — quando a ata sinaliza a possibilidade de prolongamento. Os papéis estão hoje invertidos: o mercado quer interromper a marcha da Selic e o BC de um partido político de centro-esquerda que historicamente cultivou a premissa fundamental da geração de empregos quer o oposto.

A distensão externa provocada pela reabertura de negociações mais profícuas com a Grécia será capaz de trazer de volta capitais externos de melhor qualidade? Dados mais atualizados a respeito da balança cambial de junho, divulgados ontem pelo BC, mostram que a desvalorização do dólar vem sendo comandada pela pior espécie possível de capital estrangeiro. O movimento de entrada e saída física de dólares da economia brasileira não autorizaria a atual apreciação da taxa de câmbio. No acumulado do mês até o dia 18, registra-se a fuga líquida de capitais pela conta financeira no montante de US$ 3,66 bilhões. A balança cambial só consegue contabilizar um déficit menor, de US$ 3,13 bilhões, porque a conta comercial mostra saldo positivo de US$ 531 milhões. Se não é então o capital regularmente registrado no BC aquele que vem forçando a queda do dólar, qual é a fonte da apreciação do real? Entra em cena a mais perniciosa modalidade de “carry trade”, a que dispensa o ingresso de dólares. Trata-se do “Non-Deliverable Forward” (NDF) fechado no mercado de balcão internacional, contrato originalmente concebido para fornecer proteção cambial mas que pode ser tratado como operação de renda fixa. É um derivativo que lida com dólares “sintéticos”, apenas escriturados em meios eletrônicos, mas que, pelo seu volume de apostas, interfere na cotação do preço à vista da moeda. Como tais operações são facilmente reversíveis, não é um capital nada confiável. E, por isso, seu ingresso deveria ser combatido pelo BC por meio da redução dos estoques de swaps cambiais em poder do mercado.

Se, em apenas duas semanas, a expectativa avançou 0,60 ponto é porque há algo de muito errado nos modelos econométricos de predição do IPCA. E se eles erram em relação ao que seria mais fácil de acertar — justamente a inflação que está ocorrendo agora — por que não estariam sujeitos a equívocos maiores ainda acerca da inflação que irá acontecer no ano que vem? O pior de tudo é que a política monetária está sendo levada ao cúmulo do mais nefasto monetarismo com o objetivo confesso e precípuo de fazer com que as projeções do mercado para 2016 se alinhem à ideia fixa do BC de se obter taxa de inflação no centro de 4,5% da meta. Está-se se dando demasiada importância à ancoragem das expectativas, em obediência à inferência técnica de que as “expectativas” são responsáveis por um terço da inflação futura. Qual a influência da recessão sobre os preços? Trata-se de um fator hoje profundamente subestimado.

Enquanto a economia agoniza, BC e mercado sustentam sua guerrinha de expectativas. Depois de toda a alta já feita na taxa Selic, somente no Focus divulgado ontem constatou-se que os economistas de instituições finalmente equipararam sua previsão de IPCA à perseguida pelo BC, mas somente para o ano de 2018. Isso mesmo: a projeção de inflação para 2018 recuou de 4,6% para 4,5%, taxa que antes só era prevista para 2019. Para 2017, o consenso do Focus reduziu a aposta de 4,80% para 4,75%. E para o ano que vem, o alvo exclusivo do Copom? A expectativa manteve-se em 5,5% pela quinta semana consecutiva. Ou seja, o BC está se esforçando para promover uma brutal recessão econômica e o mercado acredita que só em 2018, ano eleitoral de gastos públicos naturalmente inchados, será possível baixar o IPCA para 4,5%. Está tudo completamente fora do lugar.

O que o Focus está dizendo ao BC é simples: pare de subir a Selic porque você não vai conseguir derrubar o IPCA para 4,5% no ano que vem. O BC acredita que o mercado está errado nessa aposta, mas, ao invés de agir coerentemente com a sua certeza íntima, eleva ainda mais a Selic, movimento que acaba dando razão ao ceticismo do mercado. Depois da ata severa do último Copom, o Focus ajustou para cima sua estimativa de Selic para o fim do ano, mas só concordou em aumentá-la de 14% para 14,25%. Para o mercado, a elevação de 0,50 ponto que o Copom fará no mês que vem será a última do longo ciclo de aperto monetário — quando a ata sinaliza a possibilidade de prolongamento. Os papéis estão hoje invertidos: o mercado quer interromper a marcha da Selic e o BC de um partido político de centro-esquerda que historicamente cultivou a premissa fundamental da geração de empregos quer o oposto.

A distensão externa provocada pela reabertura de negociações mais profícuas com a Grécia será capaz de trazer de volta capitais externos de melhor qualidade? Dados mais atualizados a respeito da balança cambial de junho, divulgados ontem pelo BC, mostram que a desvalorização do dólar vem sendo comandada pela pior espécie possível de capital estrangeiro. O movimento de entrada e saída física de dólares da economia brasileira não autorizaria a atual apreciação da taxa de câmbio. No acumulado do mês até o dia 18, registra-se a fuga líquida de capitais pela conta financeira no montante de US$ 3,66 bilhões. A balança cambial só consegue contabilizar um déficit menor, de US$ 3,13 bilhões, porque a conta comercial mostra saldo positivo de US$ 531 milhões. Se não é então o capital regularmente registrado no BC aquele que vem forçando a queda do dólar, qual é a fonte da apreciação do real? Entra em cena a mais perniciosa modalidade de “carry trade”, a que dispensa o ingresso de dólares. Trata-se do “Non-Deliverable Forward” (NDF) fechado no mercado de balcão internacional, contrato originalmente concebido para fornecer proteção cambial mas que pode ser tratado como operação de renda fixa. É um derivativo que lida com dólares “sintéticos”, apenas escriturados em meios eletrônicos, mas que, pelo seu volume de apostas, interfere na cotação do preço à vista da moeda. Como tais operações são facilmente reversíveis, não é um capital nada confiável. E, por isso, seu ingresso deveria ser combatido pelo BC por meio da redução dos estoques de swaps cambiais em poder do mercado.

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