'Esquerda da frente ampla saiu fortalecida no Uruguai', diz cientista político

O professor da Unirio Guilherme Reis diz que com a eleição de Tabaré Vásquez a condução das políticas econômicas e sociais não deve mudar muito com relação ao governo Pepe Mujica

Por O Dia

Apesar do presidente eleito Tabaré Vázquez estar mais próximo da ala centrista da coalizão de esquerda Frente Ampla, a condução das políticas econômicas e sociais não deve mudar muito com relação ao governo Pepe Mujica. Um eventual ímpeto por ajustes fiscais e medidas conservadoras, como modificações nos planos de regulamentação da maconha, estarão limitadas pela expansão da ala mais esquerdista da coalizão, o “Grupo dos Oito”, encabeçado pelos mujiquistas. Composto pelo Movimento de Participação Popular (MPP), de Mujica, pela “Lista 711”, do vice-presidente eleito Raúl Sendic, e pelo Partido Comunista, o grupo obteve mais cadeiras no Legislativo e poderá bancar a continuidade das políticas progressistas. A avaliação é de Guilherme Reis, professor da Escola de Ciência Política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).

"A população uruguaia é mais politizada e menos influenciada por questões religiosas do que a brasileira. Mas não é um mar de rosas, vetaram por duas vezes a derrubada da lei, que prescreve os crimes da ditadura”, diz o professor Guilherme ReisMaira Coelho


A que o senhor atribui a vitória com folga de Tabaré Vázquez?

Os dez anos de governo da Frente Ampla (FA) foram bem-sucedidos e Tabaré Vázquez é a figura política mais popular do Uruguai segundo pesquisas de opinião. Na verdade, o que chegou a ser surpreendente foi o bom desempenho do candidato de oposição nas primeiras sondagens. Com Vázquez e Pepe Mujica como presidentes, houve redução da pobreza, o desemprego chegou a índices historicamente baixos (6%), e foi realizada uma reforma importante que diminuiu o caráter regressivo do sistema tributário. Antes sequer havia um imposto de renda de pessoa física.

Quais serão os principais desafios do novo presidente?

O maior desafio está na questão da Segurança Pública, certamente. Esse foi o calcanhar-de-Aquiles do governo Mujica porque houve aumento significativo nos homicídios. Além disso, apesar do incremento do investimento na Educação, e da criação de uma nova universidade pública no interior (Universidade Tecnológica), essa é também uma área bastante criticada, em que ainda é preciso avançar, especialmente nas localidades mais pobres. Eu ainda destacaria a relação com a Argentina, que tem sido conturbada. Políticas protecionistas da Argentina prejudicam muito a economia do Uruguai, que, por ser um país pequeno, fica bastante vulnerável. Isso levou Mujica a priorizar claramente o relacionamento com o Brasil.

O PIB uruguaio cresce há 12 anos consecutivos. Mas analistas alertam para a necessidade de se fazer um ajuste fiscal. Pode haver uma guinada mais ortodoxa na economia?

Tabaré está à direita de Mujica e, provavelmente, o Ministério de Economia e Finanças continuará nas mãos do setor mais centrista da coalizão, o chamado Frente Líber Seregni (FLS), que é próximo aos empresários e contrário às reformas tributárias mais drásticas. Possivelmente, ficará com o atual vice-presidente, Danilo Astori, que é a maior liderança da FLS e foi ministro da Economia no primeiro governo Vázquez. Isso poderia indicar uma guinada ortodoxa, mas é preciso considerar a dinâmica interna da Frente Ampla. A FLS encolheu nesta eleição parlam entar, enquanto que as facções à esquerda da Frente Ampla, reunidas no chamado “Grupo dos Oito”, conseguiram a maioria na bancada legislativa da coalizão, tanto na Câmara quanto no Senado . Então, o Movimento de Participação Popular (MPP), de Mujica, a “Lista 711”, do vice-presidente eleito Raúl Sendic e o Partido Comunista, que são os três principais setores da esquerda frente-amplista, terão força para pressionar Vázquez e deter uma mudança de rumo.

E nas políticas progressistas?

Em seu primeiro governo (2005-2010), Vázquez tentou assinar um Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos, o que significaria fortalecimento da relação bilateral em detrimento do Mercosul, e vetou um projeto de legalização do aborto que havia sido aprovado pela própria bancada da FA no Congresso. Mas, novamente, o quanto isso pode mudar está limitado pela capacidade do setor mais à esquerda da Frente Ampla de pressioná-lo. Claramente, os grandes vitoriosos nas urnas foram os mujiquistas e seus aliados. Não por acaso, terminado o primeiro turno, Danilo Astori prontamente se manifestou, argumentando que a Frente Ampla não deveria começar a discutir a distribuição de cargos. Ele tem medo de que a FLS perca ministérios para o “Grupo dos Oito”.

Leia também: Candidato governista, Tabaré Vásquez, vence eleição presidencial do Uruguai

A FA manteve a maioria no legislativo, mas esta será a menor bancada dos seus três mandatos. Porque isso aconteceu?

A vantagem da Frente Ampla foi maior durante o primeiro mandato de Tabaré Vázquez, que havia vencido no primeiro turno. No Uruguai, a votação para o Senado e para a Câmara de Representantes é atrelada ao voto para presidente. Lá não é possível votar em um partido para presidente e no grupo adversário para deputado ou senador, como fazemos no Brasil. Então, se um candidato a presidente vence no primeiro turno, necessariamente ele terá maioria parlamentar. A Frente Ampla conseguiu maioria apertada em 2009 e, agora, em 2014 porque, mesmo não vencendo no primeiro turno, chegou muito perto disso.

Apesar do sucesso no exterior, se comenta no Uruguai que Mujica avançou nas liberdades civis, com a regulamentação da maconha e do aborto, mas não fez o mesmo com relação às reformas de base, como a agrária…

É impressionante o quanto Mujica conseguiu avançar nas liberdades civis. Acrescente aí ainda os casamentos homossexuais. Isso tende a pôr o resto à sombra. Ao mesmo tempo, como as conquistas de teor mais econômico foram profundas com Vázquez na Presidência, visto que havia muito o que mudar em relação ao modelo anterior, de caráter neoliberal, avançar mais fica mais difícil agora. Acho essa crítica, muito comum, bastante injusta. Mujica tentou implementar um novo imposto sobre o agronegócio, mas a Suprema Corte o declarou inconstitucional. Além disso, em 2010, ele criou o Fundo para o Desenvolvimento (FONDES), para apoiar empreendimentos com a participação dos trabalhadores na direção e no capital das empresas. Isso é autogestão, é um passo rumo ao socialismo, não é pouca coisa. Ele incentivou que essa fosse a solução dada, por exemplo, para a empresa de aviação Pluna, que havia falido.

Outros questionamentos ao governo Mujica dizem respeito à Educação e à Segurança, que viu os índices de criminalidade aumentarem. Podemos esperar maior atenção do novo governo a estas áreas?

Sim, foram os pontos fracos do governo Mujica. A direita tentou explorá-los. O líder do Partido Colorado, Pedro Bordaberry, filho do ex-ditador Juan María Bordaberry, tentou não apenas debilitar o governo como também apontar como solução para o problema a redução da maioridade penal. Não funcionou. Os uruguaios apoiaram a posição da FA e rejeitaram a medida em plebiscito. Na eleição legislativa, o Partido Colorado teve votação magra, o que inclusive enfraqueceu a liderança interna de Bordaberry.

A que você atribui a boa acolhida da sociedade uruguaia a medidas progressistas?

A população uruguaia é realmente mais politizada e menos influenciada por questões religiosas do que a brasileira, por exemplo. E a FA tem mais força lá do que a esquerda do Brasil para politizar tais questões. Mas não podemos idealizar o Uruguai como um mar de rosas. Incrivelmente, a população uruguaia rejeitou por duas vezes em plebiscito a derrubada da Lei da Caducidade, que prescreve os crimes cometidos pela ditadura no país.

Tabaré anunciou, em campanha, que uma prioridade será a regulamentação da mídia uruguaia. Isso contribui para uma tendência continental, por suceder a “Lei de Meios” argentina?

O cenário se repete nos diferentes países da região. Há uma mídia majoritariamente conservadora, cujo noticiário acaba se tornando enviesado, tanto pelos temas que repercute como pelos problemas e virtudes que escolhe destacar. No Brasil isso é mais grave, pois há uma concentração ainda maior em poucas empresas. Ainda, assim, acho saudável que o Uruguai aprove essa lei, que tem semelhanças com outras na Europa e em outras partes do mundo. Seria muito bom que a presidente Dilma conseguisse fazer o mesmo, mas a correlação de forças no Congresso, inclusive com muitos parlamentares ligados a empresas do setor, tornam a meta difícil.

Mujica disse, à época das eleições no Brasil que, para o Uruguai, o resultado do nosso pleito era tão ou mais importante que a própria eleição uruguaia , se referindo a cooperação no cone sul. Como isso acontece em termos práticos?

A eleição no Brasil é extremamente importante para toda a América do Sul. Existe um efeito de contágio: tivemos a era neoliberal, depois a onda de vitórias de esquerda. A vitória de Dilma fortaleceu bastante a continuidade da esquerda no poder nos países vizinhos, assim como uma eventual derrota para o PSDB daria novo ânimo às candidaturas de direita. No caso uruguaio, em particular, a reeleição de Dilma era fundamental para eles. A economia uruguaia é pequena e, portanto, muito afetada pelo que ocorre na Argentina e, de forma crescente, no Brasil. Mujica sempre disse que a produção uruguaia deveria ser complementar à brasileira. Ele sabe que o país não tem como ser autossuficiente e ganha com a parceria. Aécio Neves, por sua vez, sempre tratou a política externa dos governos petistas como enviesada pela ideologia e equivocada por se desviar do que era feito antes, do que seria o “tecnicamente neutro e correto”. Aécio declaradamente pretendia esvaziar ou extinguir o Mercosul, acabar com a ênfase nas relações Sul-Sul e voltar ao alinhamento com os Estados Unidos e a Europa. Uma virada tucana seria catastrófica para o Uruguai.

Colaborou o estagiário Gabriel Vasconcelos

Últimas de _legado_Notícia