Especulação imobiliária expulsa residentes de Nova York

Comunidade de expatriados cresce em locais como Rosedale, na qual estão diversos escritores

Por O Dia

A capa na mesa de lançamentos recentes da livraria me chamou de longe. Pode ter sido a força da palavra em vermelho: Goodbye. O título todo: “Goodbye to all that” (algo como Adeus a tudo isso).
Pode ter sido o momento. Fim de ano é sempre hora de dizer adeus a algo... Era noite de natal mas Nova York não liga para essas convenções. A livraria estava lotada e o cinema, ao lado, também. E o
livro fala do adeus a tudo isso. A essa possibilidade e a tantas outras. Sari Botton, editora da coletânea, partiu da própria experiência. Depois de viver mais de vinte anos em Nova York, ela e o marido foram despejados do apartamento em que moravam.

O prédio seria renovado. O novo aluguel não caberia no orçamento dos dois. E no de quase mais ninguém. Os dois se viram financeiramente impedidos de continuar morando na cidade. A saída foi buscar um lugar mais afastado, há menos de duas horas de Manhattan. Em Rosedale, ao norte da cidade de Nova York, eles se deram conta de que estavam rodeados de pessoas com a mesma história. Aluguéis estratosféricos, adeus a Manhattan, vida nova em Rosedale. É o que Sari Botton chama de comunidade de expatriados de Nova York. Entre eles, muitos escritores.

Por isso ela foi buscar um artigo dos anos 60, de Joan Didion intitulado, justamente, “Goodbye to all that”. Nele Didion conta como, depois de oito anos, a menina que chegou em Manhattan cheia de sonhos, assustada e fascinada ao mesmo tempo, se transformou a ponto de precisar deixar Nova York. Didion relata uma transformação pessoal, pela qual todo mundo passa. Os primeiros anos da vida adulta. E o que significa viver esse momento em Nova York. “Parte do que quero lhe dizer é como é ser jovem em Nova York, como seis meses podem se transformar em oito anos...”.

O artigo foi o ponto de partida. O convite para que outros escritores relatassem suas experiências com essa cidade ao mesmo tempo tão única e, em outros aspectos, espelho tão fiel do que se passa em tantos outros centros urbanos do mundo. O relato de Sari Botton se chama “Mercado Imobiliário” e mistura as transformações pelas quais ela passou com a mudança veloz porque Nova York está passando. Quem tenta alugar um apartamento hoje por aqui vê essa mudança muito de perto. Me deparo com o assunto a toda hora. Conversando com uma amiga que vive aqui há mais de duas décadas, no Village, fiquei sabendo que ela paga muito pouco de aluguel porque o contrato é antigo, daqueles ainda sujeitos à lei que proíbe aumentos sucessivos. Mas no prédio onde ela mora, alguns dos apartamentos já perderam esse status e o perfil do edifício mudou completamente. Os “quarto e sala” foram reformados e reapareceram como “dois quartos”. Os maiores são picotados e, já minúsculos, acomodam duas ou três pessoas. “Eu já não conheço os vizinhos porque é um entra e sai danado”, ela me disse.

No New York Times, a história de uma vitória rara na justiça. Tranquilina Alvillar (com esse nome, ela tinha que ganhar a causa!) morava no mesmo apartamento de Williamsburg, no Brooklyn, há 25 anos. A área ficou tão badalada que hoje em dia é mais cara do que muitos trechos de Manhattan. Em 2011 o proprietário anunciou reformas. Começou as obras e deixou o edifício em um estado tão precário que a fiscalização municipal mandou Tranquilina procurar outro lugar para morar porque ali ela corria risco demais. Aos 50 anos, sem outra opção, a vendedora de roupas usadas e badulaques de plástico que se mantém com a barraquinha, sempre no mesmo ponto do bairro, foi morar com o filho. Mas entrou na justiça. Enquanto isso, o edifício foi todo renovado, e o apartamento, pelo qual ela pagava US$ 700 mensais foi alugado por US$ 2.900.

Depois de quatro anos de luta, Tranquilina ganhou a causa. A família que alugou o apartamento dela em 2012 teve que sair para ela voltar para casa. Mas é um caso raro. Sari Bottom tentou mas perdeu. E conta no livro o quanto Nova York mudou nos últimos anos. Como as lojas de proprietários individuais e os restaurantes baratos e únicos deram lugar às cadeias de roupas, comida e café. Aos poucos, a gente tem a sensação de que Nova York está perdendo a alma. O charme que fez desta cidade um lugar especial, que desafia, propõe aventuras, acena com tantas possibilidades. Ainda assim, Sari Bottom ainda encontra nas ruas da cidade uma variedade encantadora nos rostos, nos sabores, nos aromas.

Não há dúvida, essa é uma cidade em constante transformação. Mas os três mandatos do prefeito Michael Bloomberg aceleraram esse aspecto da mudança que expulsou Sari Bottom de Nova York. Agora, a política do departamento municipal encarregado de fiscalizar as administradoras de imóveis mudou. Ele tem uma equipe só para checar essas renovações que são usadas, muitas vezes, para expulsar inquilinos antigos, que pagam pouco, como Tranquilina. A especulação imobiliária também provocou uma sequência infindável de despedidas. O restaurante pequeno, o preferido do bairro, a lojinha do casal de imigrantes que pagou a universidade dos filhos com o negócio, a casa noturna que lançou as bandas de rock e punk mais famosas, e por aí vai. Todos impedidos de manter o negócio por conta do preço dos aluguéis.

A Nova York que eu conheci há 26 anos já era outra quando me afastei temporariamente em 2007 e uma nova cidade quando voltei em 2012. Tenho certeza que essa mudança vai continuar. Não sei quem ainda vai conseguir pagar por um quarto e sala aqui dentro de outros 10 ou 15 anos. Mas sei também que na hora de entrar no avião de vez dificilmente vou cruzar o saguão do aeroporto sem olhar para trás, como fiz no aeroporto internacional do Rio, naquele outubro de 1988, achando que vinha para passar um, no máximo dois anos.

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