Quando o ‘menu’ limitado é um atrativo para o cliente

Empresas de um só produto ou serviço apostam em nichos como forma de proteger seu mercado e crescer

Por O Dia

Com a variedade quase ilimitada de mercadorias e serviços à disposição dos consumidores via web, apostar num só produto pode parecer uma estratégia de negócios questionável e até suicida. Mas, na prática, não faltam exemplos de “empresas de um produto só” bem-sucedidas, seja nos ramos de alimentação, indústria ou tecnologia. Entre as principais vantagens de ter um portfólio extremamente focado, empresários citam a facilidade para reproduzir o modelo de negócios e, com isto, ganhar escala.

Na rede de restaurantes L’Entrecôte de Paris, a estrela do cardápio é o contrafilé (na verdade, um corte francês da parte nobre da carne, o noix d'entrecôte). A carne é servida com batatas fritas e acompanhada de um molho elaborado a partir de 21 ingredientes. A primeira unidade foi aberta há cinco anos no bairro paulista do Itaim Bibi, pelo empresário Rodrigo Ferreira, que trouxe a ideia do restaurante de um único prato da França. “Na Europa, esse tipo de restaurante é tradicional. São redes familiares, mas nenhuma delas foi consolidada em franquias”, explica José Carlos Semenzato, um dos executivos à frente da SMZTO, holding de franquias que em 2012 comprou o controle do L’Entrecôte de Paris.

Com a aquisição, a rede de restaurantes se expandiu e hoje conta com dez unidades inauguradas (incluindo uma em Miami, nos Estados Unidos) e outras dez em montagem. Em 2013, o faturamento foi de R$ 12 milhões e a previsão para este ano é chegar a R$ 20 milhões. Se por um lado o prato único facilita a disseminação da rede por meio de franquias, por outro, tende a afetar a frequência com que os clientes voltam ao restaurante. Afinal, não há outras opções no cardápio. “Não dá para popularizar esse tipo de restaurante”, diz Semenzato, referindo-se à estratégia de expansão da rede. “Pretendemos chegar a um total de 30, 35 unidades em dois anos”.

Para cidades menores, Semenzato desenha uma rede de brasseries com um mix mais amplo de produtos, mas sem deixar de lado o contrafilé com fritas. “O projeto-piloto deve começar em 2015, em São José do Rio Preto (SP). Em dois ou três anos, pretendemos ter de 70 a 80 unidades”, adianta o empresário, que por meio da SMZTO controla 12 marcas.

Em outro campo, o da tecnologia da informação, a brasileira ContaAzul aposta todas as suas fichas no software de gestão online que leva o nome da empresa. Desde 2011, a empresa recebeu quatro rodadas de investimento, de valores não divulgados. Um dos investidores é a Valar Ventures, que pertence ao Peter Thiel, fundador do PayPal e um dos primeiros investidores do Facebook. O aplicativo ContaAzul fica hospedado na nuvem computacional e é acessado pelos usuários com base num modelo de assinaturas mensais, que custam entre R$ 29,90 e R$ 199. O público-alvo são micro e pequenas empresas. Por trás dos valores reduzidos da assinatura está uma estratégia que busca ganhos de escala, explica o CEO Vinicius Roveda, a partir de um software simples — a empresa não prevê o lançamento de outros produtos. “O mercado de software de gestão para grandes empresas já está consolidado, dividido entre grandes players como SAP e Oracle. Já o segmento de micro e pequenas tem uma dinâmica muito diferente”, argumenta Roveda, acrescentando que a meta é chegar a 20 mil clientes pagantes até o fim do ano.

Fundada em 1950, a paulista Estamparia Salete, que pertence ao Grupo Rosset, trabalha desde então no mesmo nicho de mercado: a estamparia têxtil. Ao longo das décadas, diversificou as tecnologias utilizadas e, com isso, os tipos de tecido nos quais imprime. Atualmente, estampa seis milhões de metros de tecido por ano. Nem a concorrência dos produtos acabados chineses conseguiu derrubar a companhia, cuja fábrica está de mudança da Lapa, na zona Oeste de São Paulo, para uma área de 20 mil metros quadrados em Cajamar (SP). “Um nicho é mais fácil de defender da concorrência”, argumenta Daniel Rosset, diretor da Salete. “A China não entrou no negócio da poliamida, só no poliéster. O chinês pode até fazer um biquíni de poliéster mas não vai ter a mesma qualidade daquele que a mulher brasileira está acostumada.”

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