Private equity e venture capital buscam setores na contramão da economia

Desde o fim do ano passado, os fundos voltaram suas atenções para setores anticíclicos e para investimentos defensivos

Por O Dia

A perspectiva desfavorável para a economia brasileira em 2015 não diminuiu o apetite dos investidores em private equity (participações acionárias) e venture capital (capital de risco), mas está orientando mudanças de rota. Desde o fim do ano passado, os fundos voltaram suas atenções para setores anticíclicos, que caminham na contramão da desaceleração econômica. E, também, para os chamados investimentos defensivos — empresas mais resistentes à retração de emprego e renda, como as de alimentos, vestuário básico e saúde.

“Nos últimos 90 dias, investimos US$ 150 milhões”, diz Patrick Ledoux, sócio-diretor da Actis América Latina, empresa de private equity com negócios em seis países da região, incluindo o Brasil. Os recursos foram destinados a empresas que atuam nos ramos de corretagem de seguros e agronegócio. O primeiro — argumenta Ledoux — é um segmento com espaço para expansão e ainda muito fragmentado, que vêm se expandindo num ritmo superior ao do PIB brasileiro. “O agronegócio é um dos únicos setores da economia brasileira que têm competitividade”, justifica Ledoux, referindo-se ao investimento da Actis na Genesis, empresa de certificação de grãos para exportação. Com cerca de US$ 7 bilhões em recursos sob sua gestão, a Actis detém ainda participação na holding CSD, dona de 45 supermercados com a bandeira Cidade Canção, no Norte do Paraná e no Leste de São Paulo. “É uma rede com faturamento anual de mais de R$ 1,5 bilhão e que, em 2014, registrou crescimento de 9,5% nas vendas em mesmas lojas”, detalha. “A CSD é um negócio anticíclico: o varejo de alimentos não vai ser impactado pelo aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) ou dos juros de financiamentos”. A Actis projeta novos investimentos para este ano e para 2016, com ênfase nos setores de consumo, saúde e serviços financeiros, além de nichos de indústria.

O dólar mais valorizado frente ao real é um fator favorável, na avaliação de Sérgio Almeida, sócio-diretor da consultoria Value Bridge. “Os ativos brasileiros estão mais competitivos, com uma precificação mais justa”, afirma. “Estavam muito caros, quando comparados com ativos de mesma qualidade em países compatíveis com o Brasil. Almeida destaca a demanda dos fundos de M&A (sigla em inglês para fusões e aquisições) por empresas de médio porte, com faturamento entre R$ 150 milhões e R$ 500 milhões. “As companhias grandes que tinham interesse em capital de risco já pegaram recursos. O cenário atual vai abrir oportunidades para empresas médias”, acredita o executivo, com passagem por empresas como Mococa e Adria.

Frente ao cenário adverso, os fundos optaram por reduzir o ticket médio de seus investimentos, diversificando o portfólio para reduzir riscos. Se há três anos atrás, ter uma carteira com investimentos na faixa entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões era considerado menos vantajoso, por conta dos custos de gestão mais altos decorrentes da pulverização, hoje faz sentido, principalmente para fundos que pretendem ter participação minoritária num negócio.

Para Clóvis Meurer, vice-presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap), até a crise atual que atinge a Petrobras é fator de estímulo para os investidores. “Os títulos e debêntures emitidos por empreiteiras precisam ser resgatados. Há um clima claro de negociação envolvendo grandes construtoras que estão na cadeia de fornecedores da Petrobras. São empresas que estão buscando se desfazer de ativos para obter mais liquidez”, diz ele.

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