Grupos educacionais abandonam política de distribuição ‘gratuita’ de tablets

Alunos são estimulados a levar seus próprios dispositivos para sala de aula

Por O Dia

Rio - A política do “traga seu próprio dispositivo” (BYOD, na sigla em inglês) chegou às salas de aula de grandes grupos educacionais brasileiros, deixando para trás os tempos em que instituições privadas ofereciam tablets “gratuitos” como forma de atrair novos alunos. Em vez de arcarem com o custo dos dispositivos, Estácio e Anima — dois pesos pesados do ensino superior que juntos somam mais de 600 mil alunos — investem em plataformas digitais de ensino compatíveis com os mais variados modelos e e marcas de tablets e, principalmente, smartphones.

A carioca Estácio chegou a distribuir cerca de 60 mil tablets entre 2011 e 2012, numa campanha que rendeu à instituição exposição considerável. “Mas, para 500 mil alunos, não dá. Sai muito caro”, reconhece Lindália Reis, diretora da área de Inovação da companhia. No fim de março deste ano, a Estácio tinha 527,9 mil alunos matriculados. Além do custo, a obsolescência tecnológica é outro obstáculo: “Tecnologia caduca”, diz a executiva.

Para viabilizar a política do BYOD em mais de cem unidades espalhadas pelo país, a Estácio recorreu a uma solução interna — o Teliom — para democratizar o acesso à sua plataforma virtual de aprendizado. Trata-se de uma TV inteligente com custo por unidade inferior a R$ 6 mil — de três a cinco vezes inferior ao de uma lousa digital tradicional. Desenvolvido com o apoio da empresa pública Finep e em colaboração com Intel, Samsung e Microsoft, o aparelho permite ao professor escrever na tela, abrir vídeos e documentos, capturar informações diretamente da web e interagir com os tablets e smartphones dos alunos em sala de aula, sem a necessidade de que os estudantes baixem qualquer software. Das cem unidades fabricadas até agora, dez estão funcionando no Rio de Janeiro e 53 serão instaladas na unidade recém-inaugurada de Jabaquara, na capital paulista. “Para o mercado, (o tablet gratuito) parecia um comercial da marca, mas para os alunos, significou inclusão digital”, argumenta Lindália.

Com 91 mil alunos, a Anima chegou a lançar dois anos atrás um projeto-piloto no qual distribuía tablets a alunos de pós-graduação, para acesso a conteúdo educacional. “O resultado foi muito ruim. Eles (os alunos) não usavam”, admite Rafael Ávila, diretor de Inovação da Anima. O fracasso da iniciativa abriu as portas para uma política de incentivo a que os estudantes trouxessem de casa seus próprios dispositivos. “Forçar os alunos a usar um determinado dispositivo não faz sentido”, afirma Ávila.

A saída para alcançar a compatibilidade com o maior número possível de aparelhos foi desenvolver uma solução própria — uma plataforma digital integradora de conteúdos que funciona ainda em caráter experimental mas deverá ser massificada a partir do segundo semestre de 2015. Embora a Anima não tenha mapeado ainda o uso de dispositivos móveis pelos alunos em sala de aula, Ávila estima que, grosso modo, de cada grupo de 50 alunos, cerca de 40 utilizam smartphones, contra 4 ou 5 usuários de tablets. “Essa é uma tendência que ainda está no início”, afirma Bruno Weiblen, diretor comercial do Grupo A, holding educacional que atua nas áreas editorial e de tecnologia. “O mercado é muito dinâmico, sempre com novos players, novas tecnologias. Querer se atar a uma determinada tecnologia pode limitar suas opções de mercado.”

Empresa regional, o centro universitário IESB tem 20 mil alunos espalhados por três campi em Brasília. Todas as salas de aula contam com acesso wi-fi à internet, para estimular a interação dos estudantes com o professor e, também, com os colegas de turma. “Os professores não se dão conta de que as aulas deles são uma chatice”, brinca a professora Eda Machado, fundadora do IESB.

A plataforma digital em uso na instituição permite, por exemplo, enviar notificações do tipo push a alunos e professores. Nesse tipo de mensagem, usado com frequência pelas operadoras móveis, o conteúdo aparece diretamente na tela do smartphone ou de outro dispositivo, sem que haja necessidade de abrir um aplicativo específico. A eficiência tende a ser maior que a de um e-mail, que pode ser aberto ou não pelo estudante. A importância dos dispositivos móveis para os alunos do IESB e suas famílias ficou evidente na transmissão recente via web de uma cerimônia de colação de grau: 60% dos acessos foram realizados a partir de smartphones ou tablets. “Não podemos ir contra uma corrente mundial. Ensinar hoje é totalmente diferente do que era há dez anos”, justifica Eda, ex-docente da Universidade Estadual de Campinas e da Universidade de Brasília.

“O tablet de graça era muito mais uma estratégia de marketing. Não vejo nada de errado nisso, mas atualmente o momento é outro no setor”, resume Bruno Weiblen, do Grupo A.

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