Não foi por falta de aviso

Peguei uma gripe e não tinha saído de casa desde o início da Copa, até que domingo coloquei os pés na rua

Por O Dia

E dei de cara com trocentos argentinos. Estavam em todos os lugares, a pé, muitos  em carros com placas argentinas, vi uma ‘casa rodante’, um ônibus transformado em motor home, num estacionamento, e soube de uma Kombi casa estacionada em Botafogo. Na terça-feira cruzei com um motor home vindo do Chile. Quem gosta de campismo sabia que os vizinhos latino americanos apareceriam por aqui para acampar com barracas e motor homes. Não foi por falta de aviso. Eu e vários companheiros falamos com responsáveis pelas áreas de turismo que era preciso ter lugar para estas pessoas ficarem, mas nada foi feito. E agora, vemos nossos hermanos para lá e para cá, parecendo zumbis, querendo saber onde podem acampar.

Não podem. Esse é o problema. O Brasil, apesar de ser banhado por lindas praias, ser cercado de montanhas, e ter clima bom o ano inteiro, não é um país preparado para o campismo. Os poucos campings que existem estão localizados longe dos grandes centros e dos pontos turísticos, e contam com pouco ou nenhum transporte.

Quem vem de fora não entende isso. O pessoal que está sempre viajando de motor home pelo Brasil recebeu vários questionamentos sobre como alugar um motor home aqui e qual o melhor camping para ficar perto dos estádios. Desestimulamos as pessoas a virem acampar. E respondemos que não temos motor homes para alugar. Só se forem dos grandes, tipo ônibus, mas tem que alugar com o motorista, e é caro. E são pouquíssimos bons campings no país. No Rio de Janeiro, o único camping que existe é longe do Centro, no Recreio, tem pouco transporte na porta, e é mais caro do que um hostel.

Nossos vizinhos, Argentina, Uruguai, Paraguai, e também o Chile, têm bons campings, a preços convidativos. O campismo é uma atividade muito apreciada pelas famílias e os campings ficam cheios no verão. Gostam de acampar de barraca, mas também são comuns os motor homes (ou casas rodantes) e trailers, construídos praticamente à mão. O mais interessante é que esses países possuem poucas fábricas de motor home. As melhores fábricas da América do Sul estão no Sul do Brasil. Aqui, há fila de pessoas esperando sua vez de receber seu motor home montado ao gosto do freguês.

Na América Latina não é comum encontrar aluguel de motor home. Não é como na Europa que, com a carteira de habilitação tipo B, podemos alugar um motor home, rodar pelos países, parar em campings totalmente equipados, baratos e com transporte na porta. Além de não estarmos aproveitando este nicho de mercado, trazendo turistas estrangeiros já acostumados com campismo, ainda estamos exportando clientes para fora do país. Na última terça-feira, embarcou a 5ª. Caravana de Motorhome dos Brasucas na Europa. Uma agência de turismo, percebendo o interesse de brasileiros em viajar de motor home, mas com medo de se aventurar sozinhos, montaram estas caravanas. E a ideia deu tão certo, que já tem uma concorrente.

Enquanto o Brasil sequer pensava em campings, a empresa espanhola Stoke Travel vendeu pacotes para a Copa, a R$ 250 por dia, que incluía saco de dormir e barraca compartilhada para duas pessoas e café da manhã, para acampamentos no Camping do Amor, na Praia da Pipa, a cerca de 85 km de Natal, e em Salvador, no Camping Ecológico, um dos poucos da cidade.

É isso, podíamos ganhar dinheiro com campismo, mas os estrangeiros é que ganham. Quem não faz gol, leva!

Os holandeses também assaltaram o Brasil. São mais de cinco mil. Na falta de campings, com a ajuda de uma associação, eles improvisaram uma área de camping às margens da Represa de Guarapiranga, em São Paulo. Foram montadas 400 barracas e chalés. Alguns colombianos quiseram acampar na praia de Ipanema, no Rio, o que obviamente não foi possível. O governo devia ter destinado uma área mais central para o pessoal de barraca, com estrutura de banheiros. Este problema de falta de camping já tinha ocorrido na Rio+20, quando as pessoas que tinham vindo acampar foram alojadas no Ciep do Sambódromo. De quinta!

Se o governo tivesse separado uma área de estacionamento no Aterro do Flamengo, colocado uma estrutura de pontos de energia, pontos de água e de esgoto, teríamos mais motor homes, em lugares certos, onde eles pagariam pelo uso e ficariam felizes e bem localizados. O ideal é que tivesse sido feito um bom camping na Barra, desde que não fosse uma área isolada e tivesse transporte perto. Campista prefere pagar para ter estrutura. Mas também não podem exagerar na cobrança.

Justiça seja feita! O governo fez sim um bom camping para a Copa. Em Brasília. Aliás, quem já foi lá disse que ficou muito bem feito, dentro das normas internacionais e bem localizado. É sempre animador ter algum começo. Quem sabe, vendo os estrangeiros transitando pelo país em suas casas andantes, gente que trouxe a casa até da Alemanha, pessoas acampando em todos os lugares, o Ministério do Turismo olhe com mais carinho para o campismo. E, por exemplo, consiga a construção dos parques nacionais com áreas de campings. Ajude na construção de campings municipais, com boa estrutura e a preços módicos. Se for bem cuidado e bem localizado, dá retorno. Quem viaja, sempre gasta, no supermercado, no restaurante, na praia. As pessoas querem casa, carro, plano de saúde, e viajar. Podem começar acampando e conhecendo seu país.

Últimas de _legado_Notícia