Tranco na economia e na vida

O importante é lembrar sempre que as crises passam. A onda da vazante tem a mesma força que a onda da maré enchendo. O segredo é confiar que as marés mudam

Por O Dia

A inflação em alta; o aumento da recessão, situação que os jovens e crianças nem conhecem ainda; o desemprego que chega cada vez mais perto; o custo de vida aumentando; prestações atrasadas. Estes são assuntos que estão cada dia mais na boca do povo e nos noticiários, e tenho certeza, você conhece de perto alguém que levou um tranco na vida por causa da crise que estamos passando. Perda de emprego, de um trabalho extra que era certo, mudança de residência. E mesmo os mais prevenidos estão precisando, cada vez mais, recorrer às suas economias. Estamos todos em alerta. Mas crise é também momento de mudança. O tranco faz com que pensemos: como queremos que nossa vida prossiga?

Seja lá o que tenha acontecido na vida, ou que se avizinha a acontecer, é preciso reorganizar o orçamento, cortar o que é possível e salvar o que se conquistou. Hora de conversar com a família e buscar soluções conjuntas. Quando todos se comunicam e buscam as mesmas metas, as chances de bons resultados são muito melhores. E aqui não se trata apenas de apagar as luzes e não deixar a televisão falando sozinha. É também a possibilidade de uma reflexão sobre se precisamos mesmo comprar mais roupas, se temos que sair de carro, se podemos fazer programas mais baratos e juntos.

Refletir sobre o consumo é pensar sobre a nossa vida. Por exemplo, se não podemos pagar academia, temos a possibilidade de fazer exercícios similares em casa. Só precisamos ter determinação, que é uma coisa que desenvolvemos na nossa cabeça e não compramos na esquina. Se precisarmos mudar para uma residência ou escritório menor, descobriremos muitos itens que nunca sequer usamos. Aprender a se desfazer do inútil, e de não acumular, é um bom exercício para consumir de forma consciente, com mais objetividade, sem se deixar levar pelo impulso.

Outra lição da crise que pode ser uma grande mudança na vida é a renegociação das dívidas. Nos últimos anos, os consumidores passaram a usar cartão de crédito para tudo, contando com vantagens como milhagem, brindes, descontos. E virou febre parcelar em até 12 vezes. Era comum ouvir: “ se é o mesmo preço que à vista, vou parcelar porque assim nem sinto pagar”. Administrar o orçamento para pagar tantas prestações dá trabalho. O mistério do cartão é nunca entrar no pagamento parcelado. Quem entra enfrenta uma grande dor de cabeça para sair. É hora de rever o uso do cartão de crédito. Quem passa pelo desespero de pagar os juros cobrados pela inadimplência no cartão, nunca mais quer usá-lo.

Além de fazer uma análise minuciosa do que anda gastando com o cartão para não repetir os mesmos gastos desnecessários, se o consumidor está chegando ao ponto de não conseguir pagar à vista, é bom começar a pesquisar um empréstimo com juros menores, liquidar o cartão, e o esquecer até o fim do empréstimo. Pesquisar sempre foi a melhor arma do consumidor. Mas, nesse momento, é quase crucial saber os juros dos diversos tipos de financiamento, conhecer como cada banco empresta, o que ele exige, e seus encargos financeiros. A ideia é tentar salvar os bens mais valiosos. Mas, se também não for possível manter a prestação em dia, o melhor é vender, mesmo em baixa. Pesquisar os valores de venda e aluguel de imóveis também é importante na hora de negociar.

Uma parte obrigatória da reestruturação das finanças é olharmos item por item onde gastamos o nosso dinheiro, ganho com muitas horas de trabalho. Depois que anotamos tudo, percebemos o que realmente é importante manter, que existem itens que podem ser cortados logo, alguns podem ser reduzidos e outro negociados. Podemos mudar hábitos para diminuir o orçamento. Descobrimos as várias coisas que nos preparamos para um dia fazer, mas nunca fizemos.

A questão mais dolorosa da crise é o desemprego, que só vem crescendo. A proposta do governo de reduzir a jornada trabalhada e o salário não animou a indústria, que continua com a ideia de demitir, principalmente porque o setor não vislumbra uma perspectiva de retomada da economia. Sinceramente, acho que não dá para esperar nada do governo, temos que tocar nossas vidas sozinhos. Mas esse é outro assunto. A ideia aqui é pensar o que fazer com o tranco do desemprego.

Muitos dos meus amigos desempregados estão pensando em tentar novas carreiras ou em prestar concursos. Não sou nenhuma especialista em RH, mas é fato que as pessoas são multifacetadas, e, independentemente de qual universidade cursaram, possuem outros talentos. A ideia é não parar de estudar. Existem cursos pela internet, é possível trocar aulas com outras pessoas. E estar aberto para novas oportunidades, para novas ideias, se conhecer de verdade para saber o que realmente sabe fazer de melhor.

O importante é lembrar sempre que as crises passam. A onda da vazante tem a mesma força que a onda da maré enchendo. A diferença é que a maré que enche traz esperança, vem com fartura. E a vazante traz desespero porque vai secando e matando os sobreviventes. Mas são todos movimentos da mesma natureza. O segredo é confiar que as marés mudam.

Quando fazemos a nossa parte, cortamos onde tem para cortar, reduzimos os gastos, vendemos o possível, diminuímos e renegociamos dívidas e corremos atrás das soluções com a cabeça aberta, as coisas acontecem. Mas podemos aproveitar este momento de crise para nos reavaliarmos como consumidores.

Podemos comprar menos, escolher melhor, cozinharmos uma comida mais saudável, praticarmos exercícios ao ar livre. E é uma ótima oportunidade para ensinarmos aos nossos filhos que as coisas são caras, difíceis de se conseguir e é preciso buscar prazer na vida e não no ato de comprar.

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