Ações da Petrobras na Bovespa fecham em queda de 9,2%

Acionistas perdem quase 10% em um dia por causa da corrupção na empresa e da queda no preço internacional do petróleo

Por O Dia

Rio - No primeiro pregão após novo adiamento do balanço do terceiro trimestre de 2014, devido às investigações da Operação Lava Jato, as ações da Petrobras despencaram ontem nas bolsas de valores de São Paulo e Nova York. Na Bovespa, os papéis entraram em leilão, deixando de ser negociados a preços livres, depois de cair mais de 10%. Nem as promessas do governo de cortes adicionais de custos e redução do ritmo de investimentos, anunciadas na noite de sexta-feira, foram capazes de acalmar o mercado.

O Comperj é um dos projetos mais afetados pela grave crise enfrentada pela companhiaDivulgação

Ontem, as ações preferenciais da companhia encerraram o pregão da Bovespa a R$ 9,18, com queda de 9,20%. As ordinárias caíram 9,94%, para R$ 8,52. A bolsa chegou a interromper a negociação com os papéis da estatal após a variação negativa de 10% em relação ao preço inicial. As ações ordinárias foram a leilão às 14h47, quando para foram negociadas a R$ 8,54, enquanto as preferenciais entraram em venda às 14h57, quando houve negócio a R$ 9,18.

Foi o sexto pregão consecutivo que as ações da Petrobras terminaram no vermelho, acumulando no período um declínio de 25%. No ano, a desvalorização dos papéis já superam os 40%, voltando ao nível de 2005. O Ibovespa fechou em 2,5%.

Já em Nova York, os ADRs (que são recibos de ações vendidas no exterior) fecharam o pregão em queda de 12%, a US$ 6,66. No início do dia, o banco Credit Suisse havia divulgado relatório reduzindo o preço-base para as ações da empresa, de US$ 14 para US$ 7,30.

“Defendemos o argumento de que, se (um grande ‘se’) a Petrobras puder demonstrar de forma plausível aos investidores que aquelas promessas podem ser alcançadas, esse seria o primeiro passo para uma reavaliação das ações da companhia”, informa o relatório da instituição.

PREÇO BAIXO DO BARRIL

Além da queda brusca do valor das ações, a petrolífera sofre com o baixo preço do barril de petróleo no exterior. O do tipo WTI recuou mais 3,3% nos Estados Unidos e fechou a US$ 55,91, a menor cotação desde maio de 2009. No ano, O valor já recuou mais de 40%, diminuindo a rentabilidade do pré-sal.

“A Petrobras precisa se recriar, a situação é complicada. E o que causa estranheza é a imobilidade e a perplexidade do governo, que não tem feito nada. O plano de investimentos da estatal terá que ser revisto, assim como os de todas as demais empresas que dependem da companhia”, aponta Adriano Pires, fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura, alertando que um dos projetos mais conturbados da empresa, o Comperj, pode ter seu andamento afetado.

Quem está de olho no furacão enfrentado pela petrolífera é o governo do Rio. O estado concentra 80% das reservas já provadas de óleo e 30% do Produto Interno Bruto é gerado pela cadeia de óleo e gás, 18% apenas na atividade de extração. Com o preço baixo do barril de petróleo, diminui o volume de distribuição dos royalties de petróleo no país.

“É um momento de cautela. Embora a queda do preço do barril seja relevante, o dólar alto compensa a perda. Tanto a volatilidade de um e do outro ainda não acabou. Mas é evidente que preocupa, pois afeta a arrecadação em royalties, principalmente dos municípios fluminenses”, alerta o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Julio Bueno.

Número de réus chega a 19 pessoas

O juiz Sérgio Moro, da Justiça Federal do Paraná, aceitou ontem denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra dez executivos e funcionários das empresas OAS e Galvão Engenharia por pagamento de propinas para os diretores da Petrobras.

Assim, subiu para 19 o total de pessoas que respondem a ações penais decorrentes da Lava Jato, que investiga o superfaturamento de obras da petrolífera.

As novas ações atingem o presidente da OAS, José Aldemário Pinheiro Filho, o diretor da Área Internacional, Agenor Franklin Magalhães Medeiros, o diretor financeiro, Mateus Coutinho de Sá Oliveira, e os funcionários José Ricardo Nogueira Breghirolli, Fernando Augusto Stremel Andrade e João Alberto Lazzari.

Da Galvão Engenharia, viraram réus o presidente Jean Alberto Luscher Castro e o diretor de negócios Erton Medeiros Fonseca. Também são acusados o executivo Eduardo de Queiroz Galvão e Dario de Queiroz Galvão Filho, presidente do mesmo grupo.

O MPF denunciou ontem à Justiça Federal mais quatro acusados de desvio de dinheiro da Petrobras. O ex-diretor de Área Internacional da estatal Nestor Cerveró foi acusado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Também foram denunciados o lobista Fernando Falcão Soares, o Fernando Baiano — apontado como operador do PMDB no esquema —, o doleiro Alberto Youssef e Julio Camargo, que agiria em nome da Setal Óleo e Gás.

GLP para uso comercial e industrial sobe 15%

A Petrobras informou que reajustou, na última sexta-feira, em 15% os preços de comercialização do Gás Líquido de Petróleo (GLP) destinado aos usos industrial, comercial e granel em todo o país. A correção entrou em vigor no último sábado. Os segmentos correspondem a 25% do consumo nacional do produto.

Ainda segundo o comunicado da empresa, os preços de GLP que é destinado ao uso residencial, comercializado em botijões de até 13kg e o encanado — também conhecido como gás de cozinha —, não sofreram reajuste e encontram-se com os valores nas refinarias estáveis desde o ano de 2002. O governo tem evitado mexer nos preços para não pressionar a inflação.

“Esse segmento (residencial) corresponde a aproximadamente 75% do consumo nacional de GLP e seus preços continuam abaixo dos valores internacionais”, informou a estatal em nota.

O reajuste do GLP anunciado na última sexta-feira deve chegar às distribuidoras do país ao longo desta semana. Esse gás é usado, por exemplo, em hotéis, no aquecimento de água e ambientes, em restaurantes, para a produção de alimentos, e nas fábricas para acionar maçaricos e esquentar equipamentos.

Advogado entra na Justiça

O advogado Gustavo Villela, do escritório Villela e Kraemer Advogados, entra hoje, na Justiça do Rio, com uma ação por reparação de perdas provocadas a dois investidores que aplicaram em ações da Petrobras, quando as cotações estavam em torno dos R$ 24. “Por enquanto, temos dois investidores, mas venho recebendo contatos de uma série de outros prejudicados pela perda de valor da companhia”, afirmou o advogado.

Nos Estados Unidos, há oito ações coletivas questionando os impactos da crise de governança da companhia no valor dos papéis. “É uma causa difícil de perder. A maior prova que houve irregularidades é a confissão de um diretor da companhia de que praticou ilícito e sua disposição em devolver o dinheiro”, avalia Villela.

Na petição, ele questiona a gestão da empresa e a atuação do governo, como acionista controlador, por abuso de poder. Por isso, pede que a estatal e a União sejam responsáveis solidárias na execução das indenizações. Vilela solicita que o valor das indenizações seja definido após o julgamento, com base em perícia sobre a evolução dos papéis em bolsa e da movimentação patrimonial da empresa.

Em sua petição, ele diz que o Conselho de Administração da Petrobras abusou de seu poder ao “nomear pessoas que obedeciam a um comando do governo central, acionista controlador da empresa”. (por Nicola Pamplona)

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