Descoberta de que bactéria contra dengue foi feita por acaso

Pesquisadores foram surpreendidos com a ação da Wolbachia em transformar o vetor num ‘mosquito do bem’

Por O Dia

Rio - O poder da bactéria Wolbachia de bloquear o vírus da dengue no Aedes aegypti e, assim, controlar a doença, foi descoberto ‘por acaso’. No início das pesquisas, a ideia era usar o micro-organismo apenas para reduzir o tempo de vida das fêmeas e, assim, o contágio, já que são elas que passam a dengue para o ser humano. Mas, ao longo dos experimentos, pesquisadores foram surpreendidos com a ação da Wolbachia em transformar o vetor num ‘mosquito do bem’.

Tudo aconteceu na Austrália, em 2009, e teve a participação de Luciano Moreira, pesquisador da Fiocruz que atuou junto a cientistas da Universidade de Monash. Ele conta que a Wolbachia retirada da mosca-da- fruta já era estudada no país. Uma das cepas da bactéria reduzia pela metade o tempo de vida da fêmea do Aedes. “Vivendo apenas 15 dias, possivelmente ela não transmitiria a dengue”.

A surpresa, conta Luciano, veio quando os pesquisadores resolveram infectar o mosquito com a bactéria e também com o vírus da dengue, para analisar o seu comportamento. Segundo ele, 14 dias depois de infectarem os insetos com Wolbachia, não havia vírus na saliva do mosquito, ou seja, eles se tornaram incapazes de passar a dengue para pessoas.

“Fizemos o teste para ver se o mosquito com a bactéria seria um ‘supervetor’ da dengue, mas foi o oposto. Foi grande a surpresa. A partir daí, a ideia da redução do tempo de vida da fêmea foi colocada de lado”, lembra.

As pesquisas integram o projeto internacional ‘Eliminate Dengue: Our Challenge’ (‘Eliminar a Dengue: Desafio Brasil’), que foi iniciado no país, na quarta-feira, na Ilha do Governador. Foram lançados dez mil mosquitos modificados no ambiente. Luciano explica que, para o programa, que também está na Austrália, Indonésia e Vietnã, foi utilizada outra cepa, que também bloqueia o vírus, mas não reduz o tempo de vida do mosquito. “A cepa que reduz a vida traz prejuízos para o mosquito, que põe menos ovos e isso não é bom para a natureza.”

O pesquisador afirma ainda que a descoberta foi fundamental para a ampliação do projeto para outros países, incluindo o Brasil.

Moradores colaboraram

Tubiacanga, localidade na Ilha do Governador, foi palco do início do trabalho de campo no Brasil, como noticiado ontem. Dez mil mosquitos com a bactéria serão liberados por semana, por até quatro meses. O primeiro ‘lote’ foi quarta-feira. A meta é que, até dezembro, todos os Aedes passem a ter a bactéria, já que haverá cruzamento e reprodução deles na natureza. Trinta imóveis abrigaram armadilhas que capturaram mosquitos para análise. Agora, os equipamentos servirão para monitorar a quantidade de Aedes com a Wolbachia. “Fiquei feliz em ajudar. E a quantidade de mosquito na casa caiu”, diz o aposentado Amilton Clemente de Souza, 64, que tem armadilha no quintal.

Remoção de focos é contínua

Os mosquitos ‘do bem’ estão em Tubiacanga, mas o controle de focos do Aedes aegypti não para na localidade. Marcus Vinicus Ferreira, da Coordenação de Vigilância Ambiental da Secretaria Municipal de Saúde, conta que o processo de remoção de focos continua. De acordo com pesquisadores, mosquitos com Wolbachia têm vantagem em relação aos outros na hora da reprodução para transmitir a bactéria à prole. Marcus conta que o trabalho com a Fiocruz começou em 2011, com o levantamento de dados epidemiológicos e a coleta de mosquitos. O trabalho vai continuar e os insetos capturados serão encaminhados para análise na Fiocruz. “Mensalmente, vamos verificar as armadilhas para ver a quantidade de mosquitos com a bactéria. Acreditamos que a população deles vai crescer”, afirma.

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