Fernando Molica: O pai, o filho e as máscaras

O melhor momento da performance do pai foi quando ele reclamou do rosto coberto do filho

Por O Dia

Rio - Nunca pensei que seria solidário a um black bloc, mas fiquei com pena do garoto de 16 anos que, diante das câmeras, foi arrancado pelo pai de uma manifestação. Foi um mico histórico. Mas me solidarizo também com o cara que saiu de casa para retirar o filho de um ato que, como virou rotina, se transformaria em um novo confronto com a polícia.

Cheio de certezas, o filho alegava que protestava por melhores serviços de saúde e educação. Argumento que não sensibilizou o pai: preso a uma lógica individualista, ressaltava que bancava os estudos do filho, que, portanto, não tinha razão de reclamar. No fundo, ele estava ali para proteger a cria, para evitar que o garoto se machucasse.

Mas o rapaz, como naquela antiga canção, queria ajudar a fazer a hora, julgava ter a história na mão. É bom que jovens se mostrem indignados, não considerem normais tantos e tantos absurdos brasileiros. Nossas mazelas não são fruto de uma armadilha do destino ou de uma ação divina, fazem parte de um modelo de sociedade criado para privilegiar alguns e deixar muita gente de fora da festa. Chega a ser patético que, na segunda década do século 21, ainda estejamos discutindo saúde e educação. Isso, porém, não pode justificar os protestos violentos que têm sido promovidos.

O melhor momento da performance do pai foi quando ele reclamou do rosto coberto do filho, disse que trabalhava para sustentá-lo, não para que ele escondesse a cara. Em seguida, retirou a camiseta que o rapaz usava como máscara. Apesar de autoritário, o gesto aponta para uma possibilidade de saída. O bom seria se todos tomassem a iniciativa de tirar suas máscaras, precisamos mostrar a cara, explicitar nossas propostas, submetê-las à chuva, ao sol, à crítica. A máscara remete a certezas frágeis, que temem ser questionadas. Confinadas à vida clandestina, ideias mascaradas tendem a se tornar ainda mais radicais e descoladas da sociedade.

A fala do garoto reforçou uma certa semelhança entre o voluntarismo black bloc e as certezas que, há algumas décadas, levaram tantos jovens à opção pela guerrilha que derrubaria a ditadura e implantaria o socialismo no país. Deu no que deu, a tentativa de luta armada serviu de combustível para o aumento da repressão e ajudou a alongar a ditadura. Os então integrantes de organizações de esquerda podiam, ao menos, alegar que os espaços de discussão estavam bloqueados, que a clandestinidade era a única opção disponível. Hoje, a situação é diferente, máscaras — físicas ou simbólicas — são desnecessárias, apenas dificultam a conversa.

E-mail: fernando.molica@odia.com.br

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