Moacyr Luz: As nações unidas

O mexicano percebe o azedo do meu sorriso: ‘Querido La Bamba, você necessita uma poca de gracia! Arriba’

Por O Dia

Rio - Na cidade, cada vagão do metrô parece um arco-íris de nações. Do que nos cabe, estamos cordiais feito um peixeiro de feira quando retira todas as vísceras do seu pescado: agradece, rindo, com qualquer R$ 2 de caixinha.

O Largo do Machado me lembra o pátio do Louvre, o museu de Paris. Uma fila enorme em busca de atrações. Lá, entre salões imperiais, as maravilhosas Mona Lisa e a Vênus de Milo movimentam os tíquetes de entrada. Aqui, em pé, entre a Portugália e o kibe da Galeria Condor, a espera alimenta a expectativa de tocar na única joia em exposição: o Cristo Redentor. Nosso palácio é a céu aberto, o Rio de Janeiro.

Um Papa desavisado confundiria a jornada abençoando esses peregrinos do futebol. Um Lula desatento atrás de leais companheiros faria um comício para os chilenos que invadiram a Lapa, pelos Arcos. Antigos rojões não detonam a torcida dos vermelhos de Neruda.

Rivais desde a Roca, a copa tupiniquim, encontro os argentinos singrando as ondas da Avenida Atlântica. São os novos piratas de Copacabana. A paixão deve ter origem por conta do horizonte azul da Princesinha do Mar. Outra medida se repete no sol da bandeira. Os hermanos caíram de boca, empanando o calçadão com seus longos e rebeldes cabelos. Hospedados nas escaldantes areias, esquecem suas cristinas peronistas gastando os últimos pesos com latinhas alcoólicas e sandálias havaianas. Não faltam os amarelos colombianos, todos gêmeos de Rincón, falando grego da primeira partida.

Esbarrei com poucos celestes uruguaios. Talvez estejam todos fantasmas, rodeando os barbosas do passado. Fechando o Mercosul da bola, o Equador, que eu jurava ser apenas uma linha que separa os hemisférios.

Estação lotada, Babel veste as chuteiras da humildade. No país do futebol, sou abraçado por um mexicano histérico. De sombreiro verde, o cucaracho percebe o amargo do empate azedando o meu sorriso e tenta amenizar: “Querido La Bamba, acho que você necessita uma poca de gracia! Arriba!”

Lembro de Guadalajara de Pelé, Tostão e Jairzinho, lendas vivas estrelando todas as flâmulas do mundo.

Somos anfitriões, eu sei, mas quero ver o Brasil pisando no Maracanã.

E-mail: moaluz@ig.com.br

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