Fernando Scarpa: Oportunismo de plantão

Neymar, o suposto ídolo de cabelos louros e alisados, usou, sem a menor cerimônia, desse expediente

Por O Dia

Rio - Em todos os acontecimentos da vida — guerras, projetos, campeonatos, tragédias, montagens de espetáculos —, sempre encontraremos os oportunistas de plantão. Aqueles que se beneficiam do caos para tirar vantagem e culpar os outros pelas suas deficiências. São os saqueadores do pós-guerra; os ídolos que abandonam o jogo, já prevendo derrota; os prestadores de serviço incompetentes; os comprometidos com a mídia... Aqueles que não querem a imagem pública associada a derrotas.

Neste fim de Copa do Mundo, Neymar, o suposto ídolo de cabelos louros e alisados, usou, sem a menor cerimônia, desse expediente. Acidentes em campo sempre acontecem. Com eles, a oportunidade de se utilizar destes para uma saída supostamente honrosa. Fica o disse me disse, a dúvida. Onde há fumaça, há fogo. O truque é velho, acaba funcionando por conta da memória curta reinante no país.

Parece que escrevo sobre as repercussões do que aconteceu na Copa do Mundo. O assunto parece roto, mas não é sobre isso. Abordo as atitudes oportunistas, o mau-caratismo que reina nas relações comerciais e de amizade. Sim, sempre se busca um culpado, ninguém quer assumir a responsabilidade pela derrota. É duro.

Vimos o passado se repetir no presente, a mesma atitude de Ronaldo Fenômeno, que adoeceu e se fragilizou na final da Copa do Mundo de 1998. A propósito, perdemos aquela. A estratégia então funcionou comercialmente, assim como nesta, com Neymar, mas a vida tem lá seus castigos. O ídolo da Nike se envolveu, na vida particular, com cenas e pessoas não bem recomendadas. O risco evitado com a estratégia anterior não prosperou, e a imagem ficou ruída. Ele engordou, perdeu a forma e a linha.

Nossa memória curta ajuda muito. Nesta Copa, lá estava ele junto a Galvão Bueno, com pose de boneco de Olinda, muito pouco à vontade, atochado no paletó da Globo, comentando as jogadas dos colegas de profissão. Funcionou, ele entende do riscado. Fora a imagem e o desconforto, a voz não muito adequada, os comentários até que foram bons.

Mas o que ficou de tudo isso? Uma repetição? Nesse sentido, creio que sim; num outro olhar, o lucro em detrimento da vitória. Um jogador poupado de ter sua imagem associada a uma derrota. Perdemos bem! Por falar em futebol, em ídolos e garotos-propaganda, não esqueçamos a famosa Lei de Gerson: leve vantagem você também! Grana e futebol já andam juntas tem tempo.

Creio que há e havia, hoje e ontem, muito dinheiro envolvido. Sempre ele! A verdade dos fatos? Nunca saberemos, talvez daqui a alguns anos tudo isso seja revelado, contado pelo sentimento de culpa de alguém que, para se redimir e se aliviar da culpa de ter participado de tudo, resolva nos brindar com a verdade. É sempre assim, precisam do tempo. Ele tudo revela. Só nos resta esperar.

Fernando Scarpa é psicanalista

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