Políticos, botox e Photoshop

A propaganda eleitoral é de uma fragilidade e de uma falta de criatividade que não há palavras para definir

Por O Dia

Rio - A propaganda eleitoral é de uma fragilidade e de uma falta de criatividade que não há palavras para definir. Afinal, que grande desafio fazer acreditar-se em meias-verdades e falsas promessas!

Pelas ruas da cidade não deu para aguentar aqueles cartazes imundos, rasgados às vezes, com rostos sorrindo em expressões ‘fakes’ e poses repetidas de anos a fio (agora com um botox aqui, outro ali, denotando bem o passar do tempo) e com um presente quase igual ao de anos atrás. Anos de promessas mal cumpridas.

Cavaletes abrigavam algum necessitado que dorme à sua sombra, para que o material não seja roubado ou destruído por candidatos concorrentes. Esses motivos, por si, falam mais da nossa realidade do que qualquer campanha.

As fotos são tão semelhantes umas às outras, que chegamos a nos confundir quando olhamos um cartaz de um político e depois outro (em geral dependurados em favelas, comunidades carentes, terrenos baldios e, por vezes, espaços públicos, o que piora muito toda a cena da nossa realidade eleitoreira, não mais eleitoral). Tristeza!

Ao automóvel, parecemos sob o trilho de um trem-fantasma, em que, a cada curva, é aquele susto! E que tristeza o aproveitamento de alguns candidatos sobre os mais pobres pelas cidades, que precisam vender seu trabalho ou o muro de tijolos sem acabamento de suas fachadas para que algumas muitas caras fiquem por ali expostas, fazendo-se conhecidas, misturadas umas às outras, num cenário de poluição visual patético de se assistir.

Na TV, a propaganda eleitoral é um retrato quase fiel da cultura do nosso país, apresentada em rede nacional, onde se podem notar o despreparo educacional da população, a cultura da esperteza e do aproveitamento da política para benefícios próprios, o humor do brasileiro, a diversidade cultural. Com todo o respeito, é um circo! Alguém assiste seriamente a isso? Uns com um tempo grande de exibição, outros tantos, míseros segundos que mal sustentam seu número e nome. Uma injustiça e um exagero de candidaturas infundadas.

Neste nosso tempo de modernidades, tenho ouvido que o passado é o nosso futuro ou que o futuro está no nosso passado.

Não é um passado nostálgico, como um retrocesso no caminhar da sociedade — li de famoso ator outro dia —, mas uma revisão das possíveis reais mudanças que nos coloquem em desenvolvimento como seres humanos que somos há milhares de anos, em evolução contínua. Dizem as teorias.

A sociedade se vê num vazio, tamanha a falta de opção de representatividade. Já não se aguenta mais tanta falta do que dizer, do que fazer, do que não se pensar. A sociedade clama por socorro! Sentimo-nos à margem, ou melhor, reféns desse sistema incompetente de gestão.

Embora essas urnas eletrônicas, tão modernas — e não utilizadas em nenhum outro país — nos suscitem alguma desconfiança, ainda assim há o valor do voto, reconheço. Devemos fazer valer o direito duramente conquistado, ainda que com tão poucas escolhas plausíveis.

Cláudia Gonçalves é educadora e empresária

Últimas de _legado_Opinião