Jaguar: Napoleão, Aleijadinho e eu

O que temos em comum? O braço direito. Ora, direis, todo mundo tem braço direito. Mas, em algum momento da vida das nossas vidas, o braço direito ficou em evidência

Por O Dia

Rio - O que temos em comum? O braço direito. Ora, direis, todo mundo tem braço direito. Mas, em algum momento da vida das nossas vidas, o braço direito ficou em evidência. Eu fui o último a entrar para o clube, depois que levei um tombo em Pedro do Rio e quebrei o braço direito (virei esquerdista, quando já ficou fora de moda). A clássica imagem de Napoleão (com a mão direita escondida no colete) já rendeu milhares de charges e piadas. Já fiz várias com o tema nas últimas décadas. Por exemplo, Napoleão, jogando o popular jogo dos palitinhos, que a plebe ignara chama de ‘porrinha’.

Com a mão escondida no colete e dizendo “marraio” (será que alguém ainda se lembra, tem na internet?). Todos os cartunistas — e não só os franceses — têm no currículo pelo menos uma charge sobre o assunto. No meu caso, tem o que agora virou, para mim, a maldição do Aleijadinho. Trata-se do cartum que ilustra a crônica, publicado na extinta revista ‘Senhor’ há 55 anos. A ‘Senhor’ fazia na época o maior sucesso (reunia a fina flor dos jornalistas e humoristas) e mostrava o Aleijadinho (que só tinha um pedaço do braço direito) falando para um amigo, no seu ateliê em Congonhas do Campo: “Hoje me chamam de Aleijadinho, mas a posteridade me fará justiça.” Se um cartum é bom na medida em que é cruel, esse tem de sobra. Alguém aí lembra do nome do Aleijadinho? Só o Larousse e o Google: Antonio Francisco Lisboa. Mas o mestre do barroco ficará para sempre lembrado pelo apelido que obviamente detestava. Daria gargalhadas na tumba se me visse tentando digitar e fazendo desenhos com o braço direito na tipoia.

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Quase tão ruim quanto quebrar o braço é ter que contar a história do tombo para todos que encontro na rua, quando vou comprar jornal ou tomar uma cerveja na Casa do Alemão. Cheguei a imprimir um bilhete para distribuir para todos que olham o braço na tipoia: “Não me pergunte como foi”, antes que abram a boca para fazer a pergunta inevitável. Não adiantou: querem, sadicamente, saber em detalhes o que aconteceu. Já inventei várias versões. Uma delas é que é que tentei me masturbar e acabei quebrando o braço. Outra (a verdadeira) é que o acidente foi causado por um bife que encomendei no açougue, pisei num degrau de pedra que estava solto e voei. Como se sabe, jaguares não voam, e arrebentei o ombro no meio da rua sem me proteger da queda, porque não larguei o embrulho. O pior foi o comentário do cabeleireiro de Célia: “Que brega! Pedro do Rio? Se ao menos o tombo fosse em Istambul ou Paris...”

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