Por bferreira

Rio - Certa vez, assisti a um programa sobre viagens onde uma consultora dava dicas na arrumação das bagagens. Deveríamos colocar na mala todas as roupas que gostaríamos de levar e, num segundo momento, a esvaziaríamos pela metade. Assim, estaria pronta com o que realmente seria necessário.

Transportando essa ideia para a produção de um texto, especificamente para os postados na internet, diria que o mais adequado é deixar a mala ainda com menos da metade de seu conteúdo.

Sabemos que o leitor de publicações digitais tem comportamento diferenciado do leitor de impressos. Nicholas Carr, autor do livro ‘The Shallows: what the internet is doing to ours brains?’ (O que a internet está fazendo com nosso cérebro?), analisa como diferentes tipos de mídia influenciam no cérebro, que se reorganiza para se ajustar às fontes de informação.

Segundo Carr, “contemplação, introspecção, reflexão, não há espaço para isso na internet”. Afirma que o leitor digital se assemelha mais a um bibliotecário, que encontra rapidamente informações e seleciona as melhores, do que acadêmicos capazes de interpretá-las, digeri-las, que seria o perfil do leitor de impressos. Que “novas formas de leitura exigem novas formas de escrita”, pois se os escritores atuam numa sociedade cronicamente distraída, eles desistirão de argumentos complexos que requerem atenção contínua para escrever menores quantidades de informação.

Aonde tudo isso vai nos levar, se estaremos embotando a capacidade do cérebro ao adequarmos um texto a esse novo meio, ou alimentando um tipo de leitor que está se acostumando à lei do menor esforço, não sabemos. Quando entramos num espaço virtual, não ficamos ali por muito tempo, logo um novo link será acessado, depois outro e outro.

Se o objetivo de quem escreve um texto para postagem virtual é que este seja lido, adequá-lo a um tamanho menor é fato. Assim como o recurso do uso de fotos, ilustrações ou vídeos que podem complementar o argumento e torná-lo mais atrativo a esse leitor, que aprecia os apelos visuais.
É inegável que “navegar é preciso”. Mas antes de embarcar não se esqueça de levar menos da metade das bagagens. E boa viagem!

Ana Cecília Romeu é publicitária e escritora

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