Ruy Chaves: Astronautas brasileiros

Os homens saudáveis continuarão a culpar por sua violência meninos violentados

Por O Dia

Rio - Toda noite o menino dorme num banco de praça ou numa calçada da cidade perversa. Filho do ventre de todas as ruas, acorda na cama de papelão enrolado em jornais sangrentos que tentam aquecer suas cicatrizes, a cabeça que não consegue pensar, doída e doida. O menino astronauta das ruas logo vai à Lua e às estrelas usando crack ou solvente. Bom dia, vida!

Depois, na rua verdadeira, onde pessoas verdadeiras têm pescoços, bolsos e pulsos saudáveis, espreita, cerca, tromba, toma e corre. De que corre o filho da rua que a vida esmaga? Que sente, ao caçar, o corpo magro erguendo a faca que corta a vida, o astronauta menino que a sociedade saudável caça? Alguém grita e persegue aquele que a multidão alcança e agride. O menino sangra, a alma não tem mais sangue. A fome sangra. A mãe sangra, o rosto do pai é uma sombra. A vida dói e sangra.

É noite mais uma vez, e meninos mais fortes dormirão sob marquises protetoras dos bancos que movimentam a riqueza da sociedade. Astronautas das ruas novamente enrolarão o corpo em jornais sangrentos e voltarão à Lua e às estrelas com o crack ou com solvente. Boa noite, vida!

Os homens saudáveis continuarão a culpar por sua violência meninos violentados e seus pais violentos, também filhos das ruas; continuarão a discutir maioridade penal e eficiência de políticas públicas, a criar organizações para proteger os meninos nas ruas e a fazer filmes. A culpa é sempre do outro, e gerações de meninos das ruas se sucedem, filhos do ventre amargo, astronautas sujeitos a novas tragédias como a da Candelária.

O Estado de Direito impõe sanções efetivas da Justiça contra a violência e o crime, o que independe da idade do autor, mas os centros de ressocialização são inumanos. É tempo de tirar as máscaras. Rua não é lugar de menino. A Emenda Constitucional 59 tornou obrigatória a matrícula na Educação Básica para todos de 4 a 17 anos. Todos os meninos são humanos, com direitos inalienáveis: amor e respeito, família, lar, escola integral e educação para a vida e o trabalho qualificado.

Diz Olavo Bilac: “Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste! Criança, não verás país como este!” A terra é mãe e nutriz. Nossa pátria não é boa mãe para todos os filhos. Panta rei.

Ruy Chaves é diretor da Estácio e da Academia do Concurso

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