Leda Nagle: Preconceito, tô fora!

Não vejo diferença no caráter de quem se acha no direito de julgar o corpo do outro, para aquele que acha que pode matar ou surrar alguém que fez uma escolha sexual diferente

Por O Dia

Rio - Como o preconceito é burro, feio e deselegante! Qualquer preconceito! Venha de onde, de quem, quando e como vier! E vem de quem a gente menos espera. E vem de gente ignorante, que não teve acesso à educação e vem de gente que estudou , que tomou leite na infância e que, teoricamente, não deveria ser preconceituoso. Vem até de quem sofreu ou sofre com o preconceito alheio. E com as desculpas mais pífias. Por conta da religião, da cor da pele, da orientação sexual, e, agora, mais modernamente, do peso corporal.

Tem até uma senhora que explicando seu preconceito contra mulheres gordas se justifica, alegando que gosto é muito individual. Como se sua escolha pelo seu jeito preconceituoso de ser justificasse o preconceito e a repulsa pelo outro. Quem é a senhora, certamente você está se perguntando. E pode até achar que estou omitindo o nome dela por preconceito ou para poupá-la. Vou omitir sim o nome dela porque nestes tempos que vivemos, de excesso de ego, não lhe dar crédito é, de alguma forma, reduzi-la ao anonimato, o que no caso em questão me parece uma boa resposta, ou a mais cruel de que sou capaz.

Sim, porque no momento em que li a entrevista fiquei, além de perplexa, muito irritada. Mas não é prudente escrever nem pensar num assunto com raiva. Nestes casos é melhor esperar, fazer como recomendam os chineses, “dormir e acordar com a questão no pensamento” para daí ter a lucidez adequada para reagir. E até mesmo para pensar. Pensar por exemplo no que será que leva uma senhora famosa, bem- sucedida, a alimentar preconceitos e até deles se orgulhar, num momento como este que vivemos, de manifestações perversas de homofobia, de racismo e de ódio contra imigrantes e migrantes?

Não vejo diferença nenhuma no caráter de quem se acha no direito de julgar o corpo do outro, para aquele que acha que pode matar ou surrar alguém que fez uma escolha sexual diferente da pessoa. Ou da pessoa que se acha melhor ou maior do que alguém que tem a cor da pele diferente da sua e por conta disto se acha no direito de ser racista.

Também não acho a pessoa que odeia o gordo melhor que alguém que se julga tão superior que se sente no dirito de dar uma rasteira num pai de família que foge da guerra levando filhos no colo, como fez a cinegrafista húngara.Também não acho melhor a pessoa que se acha no direito de criticar a senhora de mais de setenta anos que vai à praia de biquíni. Pra dizer a verdade, acho tudo farinha do mesmo saco.

O preconceito, seja ele em relação à idade, racial, religioso, homofóbico ou gordofóbico, tem a mesma origem e a mesma razão: a intolerância com o diferente. A dificuldade de admitir o outro, como ele é. E a questão aqui não é simplesmente a liberdade de dizer o que pensa. O triste e lamentável aqui é o preconceito em si e que, certamente, ofende a vítima mas, com certeza, faz do preconceituoso uma pessoa menor.

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