Wadih Damous: A trágica novidade que tem na Providência

Houve um tempo em que a novidade no Morro da Providência era a criançada se alimentar de luz

Por O Dia

Rio - Houve um tempo em que a novidade no Morro da Providência era a criançada se alimentar de luz. A fome e as precárias condições de vida nos morros cariocas sempre foram a tônica do cotidiano de milhares de seres que quase ninguém pergunta por eles e que se disfarçam tão bem nas profissões de guardas-noturnos, baleiros, garçons, jardineiros, babás e pedreiros.

A melhoria nas condições de vida dessas famílias observada nos últimos anos é fruto de políticas públicas de inclusão social e de distribuição de renda. Isto amenizou um pouco a dura realidade econômica dos moradores das favelas cariocas, mas a ausência de política educacional efetiva acabou substituída por uma de segurança pública segregacionista, violenta e que produz tragédias civilizatórias em série.

Eduardo Felipe Santos Victor, de 17 anos, foi executado sem qualquer chance de defesa pela polícia carioca após ser rendido. Ainda vivo e agonizante, sentiu o toque em seu corpo não para receber o socorro esperado, mas para tetricamente simular um auto de resistência, subterfúgio que garante a impunidade e estimula a prática deste lamentável comportamento pelas forças policiais.

Herinaldo Vinicius de Santana, de 11 anos, foi morto após ser baleado na comunidade Parque Alegria, no Complexo do Caju. Herinaldo saiu para comprar uma bolinha. Policiais da UPP disparam contra seu corpo, assustados porque a criança corria. Nos seus últimos momentos chamou por sua mãe, que não chegou a tempo de encontrá-lo vivo.

Infelizmente são incontáveis os Herinaldos e Eduardos assassinados por agentes do Estado e muitos dos quais sequer tomamos conhecimento. O relatório divulgado pela organização Human Rights aponta que no Rio foram 416 mortes nestas circunstâncias, em 2013, e 582 em 2014, um avanço de 40%.

No Brejo da Cruz — lugar mítico e real cantado por Chico Buarque —, crianças não podem mais se alimentar de luz. São assassinadas antes, mesmo que já rendidas por agentes públicos ou quando optam pela infeliz decisão de correr atrás de uma inofensiva bolinha de pingue-pongue.

Wadih Damous é deputado federal pelo PT

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