Júlio Furtado: O que te move, professor?

Podemos comemorar nosso incurável idealismo de ajudar a construir um mundo melhor, mais justo e mais fraterno

Por O Dia

Rio - A cada ano, fico especialmente apreensivo quando chega a época de escrever um texto dedicado ao 15 de outubro, Dia do Professor. Já escrevi inspirado pelos mais variados sentimentos, da revolta à esperança. Neste 2015, tão obscurecido pela palavra crise, a fisionomia das pessoas me transmite desânimo, e as palavras, revolta.

Diante desse quadro desolador, fico a pensar sobre o que os professores estão respondendo para as nossas crianças, adolescentes, jovens e adultos quando perguntam se o Brasil vai falir ou se teremos que pedir esmolas. A resposta do professor, certamente, pesará bastante no quanto de esperança esse aluno ainda terá. Com certeza, as respostas estão sendo proporcionais ao quanto de esperança estamos conseguindo ter.

Tenho me alimentado, insistentemente, de exemplos de bons educadores de carne e osso. Digo de carne e osso porque os exemplos de educadores destemidos que desbravam as matas e dão suas vidas pelo que fazem, ao invés de me inspirarem, me deprimem.

Talvez porque eu não tenha vocação para ser herói ou mártir. Quero apenas conseguir que meus alunos aprendam e se tornem autônomos para aprender cada vez mais. Quero manter-me uma pessoa comum que prefere tomar um chopinho com os amigos num domingo à tarde do que ficar fazendo plano de aula.

Quero acreditar que esse é o perfil da maioria dos professores brasileiros. Gostam do que fazem, acreditam que podem fazer melhor e lutam, diariamente, para não perder essa crença. Acredito que podemos comemorar nossa humanidade. Sim, porque a humanidade do professor precisa ser especial. Precisamos acreditar no ser humano acima de qualquer coisa e investir para que ele se supere a cada dia, mesmo quando tudo diz o contrário.

Podemos comemorar nosso incurável idealismo de ajudar a construir um mundo melhor, mais justo e mais fraterno. Sugiro que aproveitemos o Dia do Professor para nos perguntar insistentemente o que nos move. Para avaliar o nosso fazer cotidiano, nossa postura enquanto educadores e nos perguntar, com honestidade, se merecemos os parabéns. Aproveitemos para nos apropriar do nosso projeto de vida e do nosso projeto de mundo e fazer deles um projeto pedagógico ao qual possamos ser fiéis com todas as nossas forças.

Júlio Furtado é professor e escritor

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