Ricardo Cravo Albin: A crônica do Rio e um de seus melhores autores

Quem não leu Rubem Braga pode ainda se consolar com cronistas de hoje, como Joaquim Ferreira dos Santos

Por O Dia

Rio - Para quem não sabe das sutilezas da literatura, a crônica é gênero literário. Mas foi considerado por muito tempo, em especial pelos narizes mais retorcidos e preconceituosos, como forma menor, ou até nula, de se fazer obra literária. De fato, é menor, mais curta, mais rápida (ou não) que o conto (seu quase pai, já bem mais alargado) e o romance (o grande avô tradicional, gordo e volumoso). O que deve mesmo ser avaliado na crônica, no conto, no romance, é a qualidade do texto, a artesania da construção, a possibilidade de provocar o belo e estimular os sentidos do leitor.

Recentemente, fui assistir a uma palestra do escritor e poeta Affonso Romano de Sant’Anna, ele também cronista de mão cheia que, no auditório da Biblioteca Nacional, destilou vagarosa e amorosamente o cronista Rubens Braga. Braga foi eleito o quinto classificado no bem-sucedido projeto ‘Os Construtores da Literatura Carioca’, empreendido pela Academia Carioca de Letras em conjunto com a Biblioteca. O cronista foi pinçado por júri rigoroso de 80 especialistas exatamente por ser... cronista. E por que Braga, à frente de tantos outros como Paulo Mendes Campos, Sergio Porto, Olavo Bilac ou mesmo Drummond (para quem não sabe, o poeta foi também habilíssimo cronista)? Porque Rubem Braga era capaz de ver com lupa banalidades, sensibilizar-se com o cotidiano e transformar em obra de arte insignificâncias aparentes, como o canto de um bem-te-vi, uma flor amarela desfolhada ou um torso de mulher. Ou seja, em acontecimento literário. Até porque uma crônica pode ser poesia. E soar como música.

Quem não leu Rubem Braga pode ainda se consolar com cronistas de hoje, como Joaquim Ferreira dos Santos, agudíssimo na forma e na sensibilidade do olhar e armar surpresas que enternecem o leitor. Para mim, aliás, ele é o melhor dentre todos, nestes chochos dias de agora.

Bem, a crônica foi o gênero coroado pela ACL como objeto de concurso de fim do ano acadêmico: o Prêmio João do Rio nos 450 anos. Ele também, o João, um opulento cronista da cidade ao começo do século 20.

De resto, as crônicas podem ser os olhos e os ouvidos, e, é claro, o coração, das levezas, dos detalhes banais ou das brisas suaves que o Rio pode inspirar. E que só uma crônica suspirosa ou perspicaz é capaz de perceber.

Ricardo Cravo Albin é presidente do Inst. Cultural Cravo Albin

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