Leda Nagle: Por que é assim?

Vontade de sair do carro e explicar para duas turistas passeando por Ipanema de madrugada que estão em perigo

Por O Dia

Rio - Da pilha de livros separados, pego, ao acaso, ‘A Lista’, texto da peça da canadense Jennifer Tremblay. Confesso que não a conhecia. Confesso que li numa tacada só, saboreei seu estilo e jeito diferentes de contar a história e fiquei, ainda um tempo, na cama, antes de dormir, pensando na quantidade de listas que faço ao longo da vida. Listas que cumpro e que descumpro, todo dia, numa luta que travo contra o tempo e pelo tempo desde sempre. Não sei resolver esta questão. 

Não dou conta de cumprir todas as listas por mais que eu me esforce. Provavelmente nem você que me lê, nem Jennifer, a autora, sabe, e sua protagonista também não consegue. Tudo é tão difícil, tudo é para ontem, tudo precisa ser marcado, explicado, analisado e nem sempre realizado. Mas a lista ou as listas são o de menos importância na história de Caroline, a protagonista. O que importa, de verdade, na vida, é a emoção, a capacidade de amar, com culpa e sem culpa, mas amar. Ou seja, o que interessa é a vida propriamente dita.

A questão de viver envolve generosidade, paciência, respeito pela pessoa diferente da gente, que pensa diferente, que ama de um jeito diferente ou que tem e expressa sentimentos que nos abalam ou horrorizam. É um livro que emociona, como as relações humanas emocionam, que conta, de uma maneira totalmente nova uma história de vida e de morte tão banal e tão forte. Clarice Niskier também emociona, no texto de apresentação do livro, falando de sentimentos e, com ele, autoriza nossas eventuais lágrimas, faz a gente pensar nas nossas falhas, nas nossas escolhas e nas nossas prioridades. Clarice é perfeita quando diz que para cada pessoa ‘A Lista’ vai bater de um jeito diferente. Rir ou chorar. Viver e morrer. Ir ou não ir. Fazer ou não fazer. Quais são as nossas responsabilidades?

A amiga que me dá carona fala da neta de 9 anos. Das dúvidas da menina que pergunta, quando chega a um lugar diferente se ali é perigoso. Como criar as crianças de hoje que perdem a ingenuidade cedo, ouvindo e vivendo as conversas e a histórias contadas pelos adultos? Qual é a intensidade da preocupação com o perigo que devemos passar às crianças? Qual é a quantidade de medo necessário para a gente adulta sobreviver?

De dentro do carro, eu e meus amigos vimos duas jovens turistas passeando por Ipanema, no começo da madrugada. Vontade de sair do carro e explicar para elas que estão em perigo. Perigo de quê? De viver? De ser livre? Passo todo dia ao lado da ciclovia Tim Maia. Leio sobre o assalto ou assaltos. Por que não me surpreendo? Por que era previsível? Por que o Rio é assim? Por que estavam circulando de bicicleta na ciclovia às dez da noite? Leio sobre o campeão mundial que perde a vida no acostamento da estrada, com todo o equipamento exigido e cumprindo as regras. Por quê? Por que a vida é assim? Por que no Brasil é assim? Então vale perguntar: por que é assim?

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